Botucatu - As policias civis e militares de Botucatu (100 quilômetros de Bauru) estão à caça dos 50 presos que ainda faltam ser recapturados. Os detentos, de um total de 61, fugiram ontem, no período da manhã, da Cadeia Pública da cidade. Na fuga, por onde eles passaram, foram deixando um rastro de medo e terror. Dois deles, considerados mais perigosos, ainda continuam soltos. Esta foi a maior fuga de presos da carceragem.
A fuga em massa aconteceu por volta das 8h40, quando os detentos estavam no pátio, tomando banho de sol. Eles serraram as grades e renderam dois carcereiros. Munidos com uma calibre 12 e duas pistolas, uma calibre 40 e outra calibre 45, eles ganharam a rua e fizeram estragos.
O pedreiro de uma obra localizada na esquina da cadeia, que preferiu não se identificar, disse que assistiu à fuga de camarote. “Saíram quatro primeiro. Eu cheguei a pensar que eram aquelas saídas a que eles têm direito. Os caras estavam saindo como se nada tivesse acontecido.”
De repente, o pedreiro percebeu que havia correria e muitos deles na rua. “Um tinha uma arma na mão e saiu em desabalada carreira. Derrubou a arma, voltou e pegou a arma e fugiu. Tinha um encapuzado. Eles se dividiram aqui na esquina. Uma turma foi para cada lado.”
Um dos presos, na versão do pedreiro, quase se matou. “Ele pulou o muro e caiu de forma violenta no chão. Acho que ficou zonzo e bateu com a cabeça na caçamba que estava na rua. Em seguida, ele levantou e bateu num Chevette que estava estacionado e levantou de novo. Ele não sabia para onde correr. Acho que não era preso de Botucatu.”
A testemunha garante que não ficou com medo. “Eu estava fazendo massa e parei. Não mexi com eles e nem eles comigo. Esperei eles desaparecerem e voltei ao trabalho. A polícia começou uma correria. Não cheguei a ouvir tiros. Um policial civil, na minha opinião, fez uma operação suicida. Pegou um carro e ficou tentando contê-los. Ele colocou a vida dele em risco.” Duas armas foram recuperadas, a espingarda calibre 12 e uma pistola calibre 40. A calibre 12 foi abandonada próximo da cadeia. A pistola foi apreendida pela Polícia Militar. Até o final da tarde de ontem, 11 presos haviam sido recapturados em Botucatu e cidades da região, segundo o delegado seccional de Botucatu, Tadeu Campos Castro. “Tanto a Polícia Civil quanto a Militar colocaram todo o seu efetivo na cidade e região a fim de recapturar os fugitivos”, salienta. A cadeia de Botucatu não registrava fugas há cinco anos, informou o seccional. No ano passado, a carceragem sofreu com uma rebelião, nesta mesma época do ano. Segundo ele, entre os presos há traficantes e um detento que invadiu a delegacia de Torre de Pedra. “Ambos preocupam, porque são presos perigosos”, avalia Castro.
A cadeia, com capacidade para acolher 60 presos, estava com 190 no momento da fuga. A população quer um Centro de Detenção Provisória (CDP) para se livrar dos problemas causados pelos presos.
Revoltante
A localização da Cadeia Pública de Botucatu incomoda os moradores das imediações. O bairro, batizado de Alto, acolhe moradores de classe média e tem edificações bem estruturadas, com segurança, mas nada que possa conter o fator surpresa.
Um morador, que preferiu não se identificar, diz que viver no bairro tornou-se um tormento. “Vira e mexe, os presos fazem rebeliões, fuga etc. Isso incomoda a gente, porque não temos tranqüilidade. Minhas sobrinhas começaram a chorar na hora da fuga. Ficaram assustadas com a possibilidade dos presos entrarem em casa.”
Plantão de familiares
As famílias dos presos que ocupam a Cadeia Pública de Botucatu se aglomeraram, ontem, nas ruas paralelas para obter informações. “Queremos saber quem fugiu e quem ficou. Se tem algum ferido ou morto, mas nem mesmo isso a polícia quer falar com a gente”, desabafaram a mãe e irmã de um preso.
Para elas, a falta de informação é sinônimo de preconceito. “Só porque somos da família de preso, ninguém fala com a gente. Temos o direito de saber deles”, declarou uma delas. (RCC)
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Coronhada rende quatro pontos
A dona de casa Jacinta Silva de Souza, 46 anos, reside a duas quadras da Cadeia Pública de Botucatu e, ontem, teve uma surpresa desagradável com a fuga. Ela levou uma coronhada de um preso e teve que ser medicada. Foram quatro pontos e um trauma.
Dona Jacinta tinha combinado com a irmã Maria Lúcia da Silva Montanha de irem juntas ao supermercado. Quando Maria Lúcia chegou para buscá-la, os presos tinham fugido e precisavam de um automóvel.
Ao perceber a ação dos presos, Maria Lúcia abandonou o carro aberto e com a chave entrou na casa. Jacinta estava com o portão aberto e tentou fechá-lo. Ela ficou segurando o portão pelo lado de dentro e o preso forçando pelo lado de fora. Quando não agüentou mais, ela soltou e pediu pelo amor de Deus para não ser morta.
O fugitivo soltou a mulher, mas, antes de continuar a fuga, deu uma coronhada na cabeça dela. O sangue jorrou e, ensagüentada, Jacinta procurou socorro com seus familiares. Ela foi levada ao pronto-socorro onde recebeu quatro pontos na cabeça. (RCC)
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Homem que teve veículo roubado participou da perseguição a fugitivos
Para Carlos Roberto Pinto, foi Nossa Senhora de Fátima que lhe salvou a vida. Ele se livrou por duas vezes dos tiros disparados pelos presos em fuga. “Eu estava na antiga rua São Paulo quando vi muita gente na rua, mas não pensei que fosse fuga em massa. Eu estava devagar, tentei dar ré e fui cercado por cinco deles. Um colocou o revólver na minha cabeça e fez eu descer do carro. Eles atiraram.”
Nenhum tiro atingiu a vítima, que entregou o Fiat Uno para os detentos. “Eles saíram com o carro e, quando eu olhei, tinha uma viatura da polícia. Não pensei duas vezes, embarquei. Nós fomos atrás deles, tentando recuperar o carro. No caminho, eles trocaram tiros com a polícia e eu, mais uma vez, fiquei imune.”
O tiro que pegou no radiador do carro fundiu o motor do Uno, que não continuou a andar por muito tempo. “Eles abandonaram o carro próximo da Fazenda Piapara, porque o veículo parou. O som que tinha em cima do carro, eles perderam.”
Na opinião de Carlos Pinto, sua vida foi defendida pela santa. “No domingo, fiz a propaganda e acompanhei a procissão de Nossa Senhora de Fátima. Hoje, antes mesmo de começar a trabalhar, os bandidos me cercaram e tentaram me matar. Eu só tenho a agradecer. Sei que foi a santa quem me salvou.” (RCC)