Ler uma placa de trânsito, um letreiro de ônibus, uma receita ou bula de remédio é tarefa cotidiana simples. Mas, para muita gente, escrever o próprio nome ou entrar no ônibus correto é trabalho que requer ajuda ou, simplesmente, é impossível. Em Bauru, 54.331 alunos estão matriculados nos cursos do ensino fundamental e médio da rede pública, dos quais 9.198, ou seja, 17%, na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o supletivo.
Mas não é só a rede pública de ensino que oferece oportunidade a quem, por um motivo ou outro, não pôde cursar os ensinos fundamental e médio na infância e adolescência. É comum empresas e entidades oferecem o curso, a exemplo da Associação de Pais para Integração Escolar da Criança Especial (Apiece), que na semana passada iniciou as aulas de alfabetização para os pais dos alunos com necessidades especiais matriculadas na entidade.
O curso é um presente pelo Dia das Mães, como disse a presidente da Apiece, Catarina Carvalho. “O nome do projeto é ‘Mãe, você pode ler o amor de seu filho’. Acho que esse presente é mais significativo do que um almoço”, afirmou a presidente da Apiece. As aulas ministradas por professores voluntários e com os custos de material, transporte e lanche bancados pela entidade, visam melhorar a qualidade das famílias que integram a Apiece. “Vai ser um curso informal, que partirá do conhecimento prático que essas pessoas já têm”, salientou Carvalho.
A professora Eunice Telli, coordenadora do curso de alfabetização da Apiece, informou que dos 40 pais presentes na primeira reunião, 21 se cadastraram para as aulas. “A primeira turma começou com sete alunos, com aulas às terças e quintas-feiras das 18h às 20h. É o primeiro passo”, completou.
Maria de Fátima Silva de Souza, 53 anos, é uma das mulheres que integra a primeira turma de alfabetização da Apiece: “Não tive estudo, meu pai era agricultor e eu precisava ajudar no trabalho. Estudei no cabo da enxada”, disse. Para ela, a privacidade e a independência para decifrar os bilhetes que a entidade manda ou, simplesmente tomar o ônibus correto sem a ajuda alheia, são os pontos mais importantes. “Vou me esforçar para aprender. Sempre quis estudar, mas não pude”, disse e logo completou: “Quero ler para sobreviver. Saber ler, escrever uma carta, uma receita é isso que eu quero”.
Ciclos
O ensino supletivo tem como objetivo suprir ciclos escolares não concluídos por um adolescente ou adulto durante a idade considerada adequada. Em Bauru, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem subdivisões. Uma delas é o Centro Educacional de Jovens e Adultos (Ceja), coordenado pela Secretaria Municipal de Educação.
O Ceja compreende 1.469 alunos do primeiro ciclo do ensino fundamental, ou seja, de 1a a 4a série. São 69 turmas em escolas da rede municipal, além de salas anexadas a outros órgãos ligados às secretarias municipais. O Município ainda mantém seis salas com 276 alunos de 5a a 8a série. A diretora da Divisão de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação, Aparecida Idalina Rover, explicou que cada série do ensino regular é cursada em metade do tempo, no supletivo.
Sendo assim, os alunos demoram dois anos para cumprir os quatro anos do primeiro ciclo fundamental. Para ingressar na primeira série do supletivo é preciso ter, no mínimo, 13 anos de idade. Rover esclarece que o supletivo reúne alunos de diversas faixas etárias, mas grande parte dos interessados é analfabeta. “Os maiores de 30 anos geralmente procuram o supletivo por conta do mercado de trabalho, religião ou para realizar sozinhos tarefas simples do cotidiano”, completa.
Para quem quiser colaborar com o projeto da Apiece, os telefones são: 3212-4662 ou 3222-0368. Ainda há vagas para as salas de 1a a 4a série do ensino fundamental da rede municipal. Para se inscrever só é preciso comparecer a uma das salas de aula da rede e falar com a professora. Os endereços das escolas podem ser obtidos na Secretaria Municipal de Educação pelo telefone 3234-1977.
Estado oferece opções
Na rede estadual (veja quadro acima), existem várias opções de cursos supletivo para ajudar os jovens e adultos a adquirir conhecimento. O supletivo presencial, aquele em que o aluno precisa freqüentar as aulas diariamente, compreende as séries de 5a a 8a do ensino fundamental e as três séries do ensino médio. O ‘presencial’ é sempre concluído na metade do tempo do ensino regular e para ingressar o interessado precisa ter no mínimo 14 anos (5a série) ou 19 anos (1o ano do ensino médio).
Segundo a assistente de planejamento da Diretoria de Ensino, Neila Cristina Zilioti, também é possível estudar por “tele-sala” e através do Centro de Ensino Supletivo de Bauru (Cesub). “A ‘tele-sala’ não requer presença diária, mas os alunos precisam atingir uma média e freqüentar as atividades propostas. Já o Cesub, é dividido em turmas pode ser iniciado durante todo o ano”, explica Zilioti.
No Cesub, implantado em 18 escolas estaduais da cidade, os alunos determinam o tempo que precisam para cursar uma disciplina. “O aluno escolhe uma matéria, seja ela, matemática, história ou português, e só pode começar uma segunda disciplina após ter terminado a primeira e assim por diante”, afirma Zilioti. (DD)