Bairros

Programa de combate à prostituição tenta retirar das ruas 14 adolescentes

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

Ao invés de freqüentarem a escola, eles permanecem nos bancos das praças. Adolescentes, meninos e meninas que deveriam estar planejando o futuro, tentam sobreviver com dinheiro de prostituição nas ruas e em casas do gênero em Bauru. Uma realidade que começou a ser combatida com mais força desde o ano passado, com o desenvolvimento do Programa de Enfrentamento à Exploração e ao Abuso Sexual de Crianças e Adolescentes (leia ao lado). O desafio é grande de acordo com dirigentes do projeto, que já atende 14 adolescentes. Meninos e meninas relataram que chegam a manter relações sexuais até em troca de marmitex. Edemilson Arias Pinotti, gerente geral da Fundação Toledo (Fundato), descreve casos verificados pelo grupo que parecem distantes da realidade de Bauru, mas que aconteceram com crianças e adolescentes de bairros da cidade. Ele relata que mães, devendo para traficantes, acabam entregando filhas ainda crianças para prostituição. Também relata que alguns casos falam da “Casa do R$ 1,99”, onde adolescentes faziam programas por esse valor. De acordo com ele, a casa já não funciona mais em Bauru.

Os dirigentes do programa calculam que esses adolescentes que trabalham à noite chegam a conseguir entre um e dois salários mínimos por mês. Mas é difícil calcular quanto ganham por programa. “Até de troca de programas por marmitex já ouvimos relatos”, conta Pinotti. Uma adolescente que conversou coma a reportagem conta que cobra R$ 30,00 por programa. De acordo com Andréa Ferreguti, assistente social e coordenadora da Fundato e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), quando o projeto de enfrentamento à exploração sexual infanto-juvenil teve início, no ano passado, ainda pouco se sabia sobre esses casos em Bauru. “Sabíamos que havia esses jovens, mas não quantos, as regiões”, conta.

Decorrido um ano, ainda não se pode calcular quantos adolescentes estão em situação de exploração sexual, mas o projeto identificou áreas onde eles costumam freqüentar. “Eles permanecem próximos à antiga estação, na Praça Machado de Mello, na rua Ezequiel Ramos, na 1.º de Agosto e em pontos da avenida Nações Unidas, como a Praça da Paz”, enumera.

Em regiões da periferia, muitos adolescentes são encontrados em casas de prostituição, principalmente em bairros como o Núcleo Fortunato Rocha Lima e o Parque Jaraguá. Em comum, esses meninos e meninas têm a situação sócio-econômica bastante baixa. Nos bairros afastados, Pinotti aponta que as adolescentes moram com a família, mas trabalham nessas casas de prostituição. “Em outros casos, a própria família alicia a jovem”, relata.

Desafios

Desde o ano passado, 14 adolescentes de 13 a 15 anos, que se prostituem nas ruas de Bauru, são atendidos pelo Crami. De acordo com Ferreguti, eles recebem apoio psicológico, são encaminhados a atendimentos de saúde e suas famílias são atendidas por programas sociais. Porém, eles ainda estão deixando a prostituição.

Para conseguir atrair os jovens, os participantes do projeto levam dias. E essa aproximação é a maior dificuldade. “O desafio é como conquistar esses meninos e meninas. Na aproximação, temos que deixar claro que nós não estamos lá para julgar, mas sim para orientar e ajudar”, explica a coordenadora.

De acordo com a delegada Marilda Pinheiro, titular da Delegacia de Defesa da Mulher, a Polícia Civil tem intensificado a prevenção, fiscalizando casas de prostituição e instaurando inquéritos policiais contra quem se beneficia desses adolescentes. Dos 14 jovens que estão sendo inseridos em programas sociais, dois são garotos. Um deles, portador do vírus HIV.

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‘Só mais essa semana na rua’

Desconfiada, uma adolescente de 17 anos que trabalhava na noite de ontem na esquina das ruas Ezequiel Ramos com a Rio Branco, não quis nem falar o primeiro nome à reportagem do Jornal da Cidade. Com uma blusa frente única branca e uma micro-saia jeans, ela esperava seus clientes duas quadras depois de um ponto de prostituição ocupado por travestis.

A menina de cabelos cacheados presos por uma presilha contou que faz ponto há cerca de um mês no Centro de Bauru. “Só atendo dois clientes por noite”, garante. De cada um, cobra R$ 30,00. “Volto para casa logo depois das 22h”. Com o dinheiro, ela conta que compra roupas e ajuda a família, que mora no Jardim Bela Vista. A família, disse ela, sabe da atividade.

Ela garante que continua estudando, mas não quis dizer a série, nem a escola. Durante a semana, ela passa pelo menos três horas por noite na rua mas aos sábados e domingos, ela fica em casa. Com as unhas roídas, uma tatuagem na cintura e o cigarro nas mãos, ela esperava os clientes. “Tem homem novo, velho. Só não atendo mulher”, garante. Praticamente encerrando a conversa, ela pára um grupo de homens para pedir mais um cigarro. “Mas eu vou ficar só mais essa semana. Depois eu paro com isso”, diz. (LL)

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Projeto combate a exploração sexual

Para divulgar o programa de enfrentamento ao abuso e exploração sexual infantil, o Centro de Registro e Atenção aos Maus-Tratos à Infância (Crami), da Fundação Toledo (Fundato) confeccionou mais de 40 mil folders que serão distribuídos na rede de ensino, além de oito mil cartilhas sobre o tema, que serão utilizadas para capacitar professores, assistentes sociais, profissionais da saúde e outros na identificação de abusos e exploração sexuais. O programa é uma realização da Fundato e da Secretaria Municipal do Bem-estar Social (Sebes).

Amanhã, Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, será realizado um evento que vai lançar a campanha contra a exploração e o abuso sexual de crianças e adolescentes na Instituição Toledo de Ensino, a partir das 13h. Serão realizadas palestras com representantes do Ministério Público do Estado, Delegacia de Defesa da Mulher, Conselho Tutelar e da Sebes. (LL)

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