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Depressão é principal doença mental

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 6 min

Há 20 anos, a Luta Antimanicomial tomava forma no País, cujo estopim foi o 2.º Congresso dos Trabalhadores da Saúde Mental, ocorrido em Bauru em 1987. Hoje, quando a cidade conta com cinco serviços de atendimento alternativo à internação, os transtornos mentais mais freqüentes são os “enlouquecimentos contemporâneos”, ou seja, depressões, síndrome do pânico e transtornos ansiosos.

Por mês, em média, 920 pessoas com depressão são atendidas em Bauru. A maioria está na faixa dos 31 e 50 anos e é mulher - 726 dos 920 atendidos, segundo a Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que 3% da população mundial sofrem de depressão grave e de 10% a 19% apresentam quadros da doença de leve a moderado. Nesses casos, estão os distúrbios ligados à perdas cotidianas. Para a diretora da Divisão de Saúde Mental, Vera Lúcia de Paula Rodrigues, Bauru deve seguir a proporção da OMS.

A depressão, em muitos casos com manifestações de tendências suicidas, é considerada o principal distúrbio psicossocial. Em segundo lugar aparecem as desordens decorrentes do abuso do álcool, com 618 internações por mês, das quais 540 são de pacientes do sexo masculino.

O movimento antimanicomial, ainda hoje, luta contra as chamadas internações prolongadas, situação em que o paciente com psicose grave ou um transtorno metal leve, fica, às vezes, por anos isolado em hospitais psiquiátricos e manicômios. Atualmente, em Bauru não existe mais hospital especificamente para pacientes com transtornos mentais e o atendimento é feito nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

O movimento antimanicomial defende que os manicômios são instituições falidas e que o asilamento não resolve o problema da loucura. Isso porque, explica o professor de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Celso Zonta, a doença mental tem causas sociais. “Discutir a loucura é discutir a sociedade. É ela quem gera a doença mental e, portanto, precisa aprender a incorporar as pessoas que manifestam transtornos psíquicos”, completa.

A idéia, surgida em 1987, e defendida até hoje é a de tratamentos que mantenham o paciente que sofre transtornos mentais inseridos em uma vida cotidiana normal e em contato social. Para isso, na cidade foram criados os atendimentos alternativos.

O primeiro, chamado Hospital Dia, nasceu em Bauru em 1988, oferecia atendimento diurno e deu origem ao Núcleo de Apoio Psicossocial (Naps) que, por sua vez, gerou os Caps. Nesses centros, explica Rodrigues, os pacientes recebem atendimento de acordo com seu problema em regime aberto, aliando medicação e diversas terapias, como a psicológica e a ocupacional.

O Caps atende, hoje, casos de dependência e psicoses causadas por abuso de álcool e consumo de drogas. Em outra unidade, são atendidas crianças e jovens de 3 a 21 anos em surtos psicóticos. Ainda há atendimento para adultos com transtornos mentais graves e o Ambulatório Municipal de Saúde Mental, voltado a atendimentos mais leves.

Além do Caps e do ambulatório, as pessoas com transtornos mentais com histórico de internações longas em manicômios são reinseridas na sociedade por meio das residências terapêuticas. Em todos os casos, o cuidado difere quanto à intensidade do surto ou do problema.

Em casos graves, o paciente recebe tratamento intensivo tendo de comparecer ao Caps diariamente, porém, dorme em casa. Quando o surto é controlado, o paciente passa ao semi-intensivo, com freqüência de terapias e medicação menor. Nos casos de acompanhamento, o paciente pode chegar a apenas uma visita de manutenção ao mês.

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Tratamento visa combater as causas do transtorno

“Trabalhamos o conteúdo, todo o tratamento é voltado aos motivos que levam a pessoa a estar naquele estado mental. Cuidamos também da família, do cotidiano”, esclarece Vera Lúcia de Paula Rodrigues, diretora da Divisão de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde.

Mas nem sempre foi assim, explica o professor de psicologia da Unesp Celso Zonta. A loucura era encarada como um problema organicista, ou seja, puramente orgânico. Por isso, o tratamento era através de medicamentos e terapias corpóreas feitas em hospitais que isolavam os doentes.

A atual reivindicação da Luta Antimanicomial é a criação de leitos para pacientes com transtornos mentais em hospitais gerais como o de Base ou o Manoel de Abreu. A cidade, apesar de ter uma dinâmica de atendimento considerada eficiente aos doentes, não possui leitos para a internação.

“Quando o caso é muito grave ou o surto muito intenso, é preciso que haja a internação pontual do paciente”, diz a diretora. Nesses casos, os transtornados em surto são encaminhados ao Hospital Psiquiátrico Tereza Perlatti, em Jaú.

Segundo Rodrigues, o ideal seria que esses pacientes fossem internados em hospitais comuns, na cidade. Atualmente, só existem três leitos para fins de internação de casos graves de desintoxicação por álcool ou drogas na rede da Associação Hospitalar de Bauru, de acordo com informações da Delegacia Regional de Saúde (DRS-6).

Além da falta de leitos de internação, Rodrigues, indica que há déficit de profissionais na área e ausência de um serviço de emergência aos pacientes de transtorno mental que funcione dia e noite e leitos 24 horas nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). (DD)

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Um pouco de história

Ser normal ou anormal é questão de ponto de vista. Deixar os “loucos” vivendo em sociedade é cada vez mais uma realidade no Brasil e no mundo. A loucura assumiu diferentes formas de manifestação ao longo do tempo. O louco foi e é visto como inconveniente, já que toma atitudes que fogem aos padrões considerados aceitáveis socialmente. A história de um dos pacientes com doença mental de Bauru serve para ilustrar a realidade vivida, que é permeada de preconceito, falta de conhecimento dos tratamentos e barreiras sociais.

Melvin Udall é incapaz de pisar ou transpor ladrilhos quadriculados, pisos rachados, recortados, enfim qualquer superfície que transmita a sensação de estar quebrada ou suja. J.J.O., quando surta, veste uma fantasia de demônio e com a força que ela lhe transmite, vai às ruas exorcizar, de forma inversa ao original, tudo aquilo que acredita ser ‘do mal’.

Melvin e J.J.O. têm desvio de comportamento, sofrem com problemas mentais. Melvin é uma excelente diversão, com um prazo de pouco mais de duas horas pra acabar. Uma fantasia hollywoodiana criada pelos roteiristas Mark Andrus e James L. Brooks, interpretada por Jack Nicholson, em Melhor Impossível, Oscar de Melhor Filme em 1997.

Já J.J.O. é real, tem 45 anos de idade, vive em Bauru, e toda vez que fica ‘endemoninhado’, como conseqüência de seus surtos psicóticos, ninguém acha graça. É um sofrimento para todos à sua volta”. (Da Redação)

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Luta Antimanicomial tem programação

Em Bauru, hoje e amanhã será realizada uma série de eventos em comemoração aos 20 anos da Luta Antimanicomial. Entre elas estão mesas-redondas de discussão sobre o tema e apresentações artísticas realizadas por usuários dos serviços de Saúde Mental de Bauru.

Todos os debates e a peça teatral “Dom Quixote” serão no Teatro Municipal de Bauru (Av. Nações Unidas, 8-9). Já as exposições de artesanato, apresentação de música e plantio de árvores estão marcados para a Praça Rui Barbosa, no Centro.

Abrindo a programação, uma mesa-redonda sobre os “20 anos da Luta Antimanicomial” , hoje, às 19h. Amanhã, Dia Nacional da Luta Antimanicomial, às 8h30, haverá apresentação de coral no teatro. (DD)

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