Rudolph era meu colega de Diretório Acadêmico, no Ginásio . Seus pais viviam numa cidade pequena do Estado de S. Paulo e ele viera morar em Campinas, com os avós europeus. Num domingo, Rudolph me convidou para almoçar com a família e eu aceitei. Ficamos a escutar alguns discos na sala, e a avó, que não falava nada em português, irrompeu por três vezes na sala, berrando algo em algum dialeto esquisito. Na última vez, Rudolph me disse:
- Ela quer que eu vá comprar cheiro verde. Já volto.
- Você vai até o Mercado?
- Não tem jeito! - disse ele.
Ele morava perto da Lagoa do Taquaral e o Mercado Central distava vários quilômetros de sua casa, por isso ele demorou para voltar. Continuei na sala até que, de repente, a avó chegou batendo palmas e fazendo gestos de comida. Acompanhei-a até a copa e a mesa estava posta. A avó fez um gesto que significava “Não podemos fazer nada!”, apontou para o relógio e me mandou sentar. Sentei-me e me servi de arroz e um guisado cor de cinza, que estava gostoso, embora tivesse um gosto diferente. “Deve ser peixe”, pensei. Fiz um gesto de aprovação ao saboreá-lo e apontei interrogativamente para o guisado, imitando com a palma da mão um peixe a nadar. Mas a velha abanou a cabeça, fechou a mão direita e a fez dar saltos sobre a mesa, abrindo os dedos quando a mão subia.
“Meu Deus, a Lagoa está cheia de sapos!”, pensei aterrorizado, já perdendo o apetite. Todavia não podia fazer nada, senão enganar que comia e rezando : “ Deus queira que seja rã!”