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Alterações na escrita em oito países provocam discussões

Daiana Dalfito
| Tempo de leitura: 3 min

A língua portuguesa não é exclusividade do Brasil, isso todo mundo sabe, assim como que existem muitas diferenças entre o nosso português e o de Portugal. Para que a língua se torne uma só, homogênea, cerca de 300 palavras devem ter suas ortografias alteradas. A partir do ano que vem, com um período de adaptação de dois anos, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entra em vigor.

Ele atinge oito países: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, todos pertencentes à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). O tratado foi proposto em 1990, votado até o final do ano passado, e prevê que algumas ortografias sejam mudadas, além de alterações no alfabeto, com a inclusão oficial das letras “K”, “W” e “Y”.

Uma única forma de escrever possibilitaria a utilização dos mesmos livros didáticos pelos países, criando uma relação entre as línguas e, conseqüentemente, entre os ensinos. O coordenador do Ministério da Educação (MEC), Carlos Alberto Xavier, afirmou que a existência de uma unidade lingüística facilitaria o intercâmbio entre as culturas. Xavier explicou que o acordo é um entendimento internacional produzido por acadêmicos em 1990. “O acordo foi aprovado pelos presidentes de todos os países e agora precisa passar pelos congressos”, disse. Porém, com a aprovação legal por três dos oito países do CPLP, o acordo passa a valer para todos os membros.

O Brasil foi o primeiro a aprovar o projeto original, em 1994. Depois disso, houve uma alteração para que a aplicação das mudanças não tivesse início certo. Portugal foi o segundo país a aprovar as adequações da língua, seguido por São Tomé e Príncipe em dezembro de 2006.

“Na década de 40, diferenças entre as normas lingüísticas entre Brasil e Portugal eram intensas. Em meados de 1970, algumas alterações foram feitas e, hoje, damos início a mais uma reforma”, apontou Xavier. Segundo o coordenador, as mudanças mais significativas afetarão os lusitanos. “Somente 0,5% das palavras da norma brasileira devem sofrer modificações”, garantiu.

Serão 21 bases de mudança na estrutura da língua, entre elas o alfabeto, a retirada do “h” no início de algumas palavras, extinção de algumas palavras homófonas (escritas diferentes, pronúncia igual) e acentuação, .

Quando perguntado sobre a “pasteurização” de aspectos culturais na língua pelas mudanças propostas pelo acordo, o coordenador do MEC disse que, a adoção de normas comuns não vai alterar a cultura, o sotaque e a identidade dos povos. “A língua portuguesa fez o mundo, cada país continuará com sua história, mas a norma comum vai garantir unidade entre as relações e o crescimento do idioma”, completou.

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Proposta divide opiniões de professores

Em Bauru, a discussão ainda não é tão efusiva. Mas os profissionais da educação estão cientes de que as alterações na ortografia, como qualquer outra mudança, vão exigir uma fase de adaptação e avaliação do impacto dos resultados.

Segundo a dirigente regional de ensino, Vera Nilce Jarussi Gomes de Sá, toda mudança na língua ou na educação requer maior cuidado com as crianças em fase de alfabetização. “Os já alfabetizados devem ter pouca dificuldade, mas até que os livros se adequem às alterações é preciso que os pequenos sejam acompanhados de perto, para que as dúvidas possam ser sanadas”, completou.

A dirigente ainda acredita que, como qualquer mudança, a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa deve provocar resistência. “O português não é fácil de ser escrito, nem mesmo de ser falado. As mudanças serão bem vindas”, terminou.

Por outro lado, a professora de educação básica, Ana Elisa Sene, vê como o principal problema da língua portuguesa a falta da leitura. “Quem lê bastante e com qualidade, praticamente não tem dificuldades com a escrita”, sentencia. A professora defende que, especialmente na época da alfabetização, as crianças precisam ser incentivadas e receber exemplos de leitura.

Quanto aos aspectos de tornar a norma única nos oito países da Comunidade de Língua Portuguesa, Sene diz que não necessariamente as mudanças vão facilitar a aprendizagem, mas vão aumentar o contato com os outros países, “mas só se as diferenças culturais forem respeitadas”, concluiu. (DD)

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