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Poder de salto alto

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 5 min

Segundo a pesquisa anual da Gallup Organization sobre educação e trabalho nos Estados Unidos, os americanos que preferem trabalhar com um chefe masculino são aproximadamente o dobro daqueles que gostam mais de chefes do sexo feminino. Embora o estudo tenha sido realizado somente nos EUA, ele abre espaço para uma reflexão sobre o mercado de trabalho brasileiro. Há preconceito em relação às lideranças femininas? Quais são os avanços e as dificuldades enfrentadas pelas chefes mulheres? O fator gênero é a principal razão para a mulher não avançar rapidamente em suas atividade profissional?

Segundo a psicóloga e doutora em psicologia clínica institucional Regina Paganini Furigo, as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço no mercado de trabalho e ocupando posições antes preenchidas somente por homens, porém ainda existe preconceito em relação à presença feminina em altos cargos. “Muitas pessoas crescem entendendo que os melhores lugares são ocupados pelos homens. Até pouco tempo, as mulheres nem podiam votar”, diz.

Ela explica que esta resistência se deve à influência do modelo patriarcal, que substituiu a vigência do matriarcado (onde as lideranças estavam nas mãos das mulheres), privilegiando, assim, a lógica, a competitividade e a racionalidade, valores considerados mais masculinos. “Nos primórdios, a chefia era exercida pelas mulheres; as grandes mães, deusas e sacerdotisas tinham poder. Os homens, praticamente, eram subalternos. Mas depois o patriarcado foi, pouco a pouco, se instalando, com um conjunto de regras totalmente diferentes, que privilegiam a lógica e a resolução fora da emoção”, avalia.

Neste sentido, acrescenta a psicóloga, todos são vítimas do patriarcado. “O homem acaba tendo comportamentos estereotipados, mesmo que esta não seja sua própria essência, e as mulheres são obrigadas à submissão ou relegadas a segundo plano.” A psicóloga observa que, na hora de tomar decisões, a mulher tende a seguir critérios pessoais e, via de regra, é mais emotiva. “E normalmente, se entende que para cargos de liderança as qualidades masculinas são as mais desejáveis, embora isto seja totalmente questionável”, ressalta.

Renovação empresarial

Este cenário, porém, passa por mudanças. Buscando aumentar a produtividade, diversas empresas investem no bem-estar físico e emocional do funcionário. “Hoje em dia, quando se trata de renovação da empresa ou de contexto empresarial, se fala em acolhimento, lazer, boa relação e alternância de liderança, que são valores mais ligados à mulher”, destaca Regina.

Diversas empresas estão trocando certos padrões de comportamento, aponta ela. Substituir ordens e imposições por reuniões que priorizam o diálogo, onde se coletam várias experiências para chegar a uma opinião, é grande exemplo da influência feminina, diz. De acordo com a psicóloga, em setores como comunicação e educação isto é mais visível.

“Isto é mais difícil, porém, em empresas que lidam com dinheiro e no meio jurídico e na política; basta observar a quantidade de representantes masculinos e femininos.” Contudo, na opinião de Regina, o cenário é animador e tem tudo para evoluir. “O lado masculino tende a ser mais objetivo, e o feminino proporciona a intuição e um padrão de liderança altamente produtivo para as empresas”, diz.

Paula Renata Carazzatto, diretora técnica da Pharmácia Specífica, tem pensamento semelhante ao de Regina. Juntamente com o marido, ela comanda 92 funcionários na empresa. “Divido a responsabilidade e autoridade com ele. Eu cuido da parte técnica e, meu marido, da parte administrativa e financeira. Na farmácia tenho supervisores homens e mulheres, e acredito que o respeito em relação a pessoa e a função estão ligados ao desempenho da função que a pessoa exerce e não tem nada a ver com sexo”, aponta Paula. E vai além: “Em uma empresa de grande porte, quando uma mulher ocupa um cargo de liderança e seus liderados são todos homens, isto pode ser ainda mais evidente, mas acho que é um preconceito que tende a cair quando a pessoa se coloca e mostra a que veio”, completa.

Há mais de sete anos, Salete Surani Fracalossi Botichio ocupa o cargo de gerente administrativo financeiro do Serviço Social da Indústria (Sesi), liderando 222 funcionários, entre escolas e unidades de Bauru, além de Pederneiras e Agudos. Ela conta que não encontra dificuldades em ser chefe. “Até mesmo pela diretora, Zuleika Lemos de Almeida Gonçalves, ser mulher, minha entrada na empresa foi fácil. A visão da mulher é mais detalhista em certos assuntos, ela tem jogo de cintura e sensibilidade no trato com o funcionário”, opina.

Pesquisa

A Gallup Organization, que estuda a natureza e o comportamento humano, realizou a pesquisa por telefone, entre os dias 7 e 10 de agosto de 2006. Mais de 1.000 entrevistados norte-americanos, maiores de 18 anos, participaram. Os resultados apontaram que a maioria dos homens (56%) afirma não ter preferência por chefes homens ou mulheres, enquanto 34% preferem trabalhar com chefes do sexo masculino e 10% preferem chefes do sexo feminino. Entre as mulheres, 40% preferem um novo chefe homem, 26% uma nova chefe mulher, e 32% afirmam que o gênero não faz diferença.

Homens e mulheres americanos têm perfis distintos quanto ao chefe desejado. Elas têm uma maior preferência por um gênero específico, enquanto eles são mais propensos a responder que o gênero do seu superior na empresa não tem importância. O estudo também identificou diferenças significativas de acordo com a idade dos americanos.

Adultos entre 18 e 34 anos preferem chefes homens (31%) ou mulheres (29%) em proporções similares, no caso de um novo emprego. Já entre os adultos com mais de 35 anos, a preferência por chefes do sexo masculino se destaca, assim como a baixa preferência por chefes do sexo feminino entre os americanos com mais de 55 anos.

Com uma margem de 37% contra 19%, os americanos afirmam que, se aceitassem um novo emprego, gostariam que seu novo chefe fosse um homem e não uma mulher. Os 43% restantes afirmam espontaneamente que o gênero não faria diferença na escolha. No decorrer dos anos, o resultado desta pesquisa sofreu algumas alterações, mas o índice de pessoas que preferem chefes mullheres nunca ultrapassou 22%.

A Gallup Organization realizou esta pesquisa pela primeira vez em 1953. Na época, dois em cada três americanos preferiam ter um chefe do sexo masculino, enquanto apenas 5% preferiam um chefe do sexo feminino e 25% voluntariamente disseram não ter preferência. A partir de 1982, esta diferença começou a reduzir, até que, atualmente, a preferência pelo gênero do chefe deixou de ter a importância que tinha no passado. Mesmo assim, em todas as pesquisas, a preferência por chefes homens sempre foi superior à preferência por chefes mulheres. (Da Redação)

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