Domingo à noite, toca a música de abertura do Fantástico, da Rede Globo, e já começa a tortura só de saber que aquele chefe estará à espera no dia seguinte. Mas engana-se quem pensa se tratar daquela figura grosseira, que se tornou caricatura em filmes e séries de TV. Atualmente o mercado oferece uma série de métodos mais sutis para quem quer demonstrar poder ou apressar o pedido de demissão de algum funcionário.
Quando o chefe escolhe o alvo, basta seguir a cartilha: sobrecarregá-lo de tarefas inúteis, sonegar-lhe informações e fingir que não o vê. Esse tipo de chefe humilha, oprime, usa as boas idéias dos outros sem dar crédito e só divide os prejuízos.
Na maioria das vezes ele é grosseiro, mas consegue ser cruel até quando é fino, isso sem falar na vigilância que faz da vida pessoal dos subordinados, criando obstáculos para o sucesso alheio. Essa relação terrorista entre o chefe e o subordinado existe desde que inventaram a hierarquia e é chamada de assédio moral.
Assédio moral não é um fenômeno novo, pode-se dizer que ele é tão antigo quanto o trabalho. A novidade reside na intensificação, gravidade, amplitude e banalização do fenômeno. A reflexão e o debate sobre o tema são recentes no Brasil, e ganharam força após a divulgação da pesquisa brasileira realizada pela psicóloga Margarida Barreto, cuja dissertação de mestrado em psicologia social teve o assunto como tema, em 2000.
O assédio moral também é discutido no livro “Contribuições do psicólogo para a promoção de saúde, qualidade de vida do trabalhador e desenvolvimento das organizações”, desenvolvido pelos professores de psicologia organizacional e do trabalho da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com a subsede Bauru do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). Este trabalho está sendo divulgado em uma série de reportagens, publicada semanalmente pelo JC.
O psicólogo José Roberto Heloani, doutor em psicologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e co-fundador do site www.assediomoral.org, classifica o assédio moral como um ‘assassinato psíquico’, pois leva quem sofre à humilhação e a adoecer física e psiquicamente, levando à depressão e, em muitos casos, ao suicídio.
Heloani destaca que o assédio é uma perversidade fria, que não deve ser confundida com um mau dia do chefe ou supervisor. Há casos ainda que a política da organização favorece esse tipo de situação. O psicólogo cita como exemplo o caso de um banco que registrou a impressionante marca de 22 suicídios entre os funcionários, de várias agências. “Há organizações que adotam uma gestão perversa, que se baseia na humilhação. Neste banco, eu garanto que isso acontecia no cotidiano”, ressalta.
O papel do psicólogo
José Roberto Heloani destaca que a presença do profissional de psicologia é fundamental nos casos de assédio moral, não só como orientador, mas principalmente para ouvir quem sofreu a humilhação. “O psicólogo tem de ser solidário e se colocar no lugar da pessoa”, afirma.
De acordo com ele, o simples fato de escutar o trabalhador que foi moralmente assediado já auxilia no processo de cura. Isto porque a pessoa perde completamente o senso crítico e passa a acreditar que está fora da realidade, por isso o papel do psicólogo é escutar sem culpar nem vitimizar o indivíduo.
No caso de psicólogos que atuam em empresas com uma gestão perversa, é necessário que este profissional conscientize a gerência ou diretoria que o problema não é dos funcionários, mas da organização como um todo, pois o ambiente fica péssimo, prejudica o clima e a produção, é um círculo vicioso.
“O psicólogo tem de estar atento que essas mudanças no trabalho, essas novas formas de gestão, essa lógica baseada em uma reestruturação produtiva, muitas vezes intensa, levam a uma sobrecarga no trabalho, e a violência em decorrência desses fatores acaba sendo banalizada”, alerta.
Serviço
Interessados em ter convênio com a Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru para receber estagiários da área de psicologia organizacional e do trabalho poderão entrar em contato com o Saepe pelo telefone (14) 3103-6133 ou pelo e-mail: saepe@fc.unesp.br.