Bairros

Universidades mantêm 385 projetos sociais

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 5 min

A vocação “universitária” de Bauru não se faz sentir apenas pela enorme quantidade de cursos superiores disponíveis atualmente à população. Isto porque as instituições de ensino instaladas na cidade não se contentam em exercer a função de meras formadoras de mão-de-obra qualificada para o mercado. Com seus projetos de extensão, elas tentam levar o conhecimento produzido no meio acadêmico até as pessoas que jamais sonharam algum dia na vida em freqüentar uma faculdade.

Levantamento feito pelo Jornal da Cidade junto a cinco instituições de ensino superior de Bauru - Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade de São Paulo (USP), Faculdades Integradas de Bauru (FIB), Instituição Toledo de Ensino (ITE) e Universidade do Sagrado Coração (USC) - constatou a oferta de pelo menos 385 projetos de extensão à população.

Atualmente, a cidade conta com dez instituições de ensino superior. Apesar de todas elas disponibilizarem algum tipo de atividade ao público (mesmo que de maneira esporádica), a reportagem se ateve às cinco citadas anteriormente, pelo fato delas estarem há mais tempo em funcionamento, característica que permite a elas criar um vínculo mais direto com a comunidade. No começo da semana, a equipe do JC contatou a Universidade Paulista (Unip) e a Faculdade Fênix a respeito do projetos de extensão oferecidos, mas não obteve resposta até o fechamento da edição.

Entre as instituições consultadas, a maioria dos projetos está concentrada em apenas duas delas: a Unesp (156 no total) e a USC (aproximadamente 150). Os restante está dividido entre USP (35), ITE (20) e FIB (20). Considerável, a quantidade de iniciativas se torna mais significativa quando comparada à população de Bauru.

Como o município tem cerca de 360 mil habitantes, de acordo com estimativas do Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), seria possível afirmar que existe 1,07 projeto de extensão universitária para cada grupo de 1.000 bauruenses.

Além de numerosas, as iniciativas são variadas e contemplam praticamente todas os campos do conhecimento. Há uma grande oferta, por exemplo, de programas na área de saúde por meio de laboratórios, clínicas odontológicas e hospitais. Esses serviços ajudaram a transformar Bauru em referência para o tratamento de diversas doenças, tanto que hoje a cidade recebe milhares de pacientes de outras localidades do Estado e do País.

Projetos culturais também são numerosos. Numa cidade em que as opções de lazer são limitadas, iniciativas mantidas pelas universidades, como cineclubes, mostras teatrais e apresentações musicais, acabam sendo a salvação para aqueles que buscam formas mais “sofisticadas” de divertimento.

Ações na área da educação são as mais fáceis de ser encontradas atualmente. Uma delas, recém-implantada, tentará transformar o Parque Ferradura Mirim, uma das regiões mais miseráveis da cidade, em um lugar “comum”. Por meio de 16 projetos, desenvolvidos numa parceria entre Unesp, USP, projeto Caná (ligado à congregação do marianistas) e Prefeitura de Bauru, os moradores do bairro terão acesso a uma série de bens e serviços pelos quais dificilmente teriam condições de pagar.

De agora em diante, eles poderão freqüentar aulas de informática, xadrez ou mesmo ginástica artística; terão a oportunidade de participar de cursos de alfabetização e, caso queiram, terão a chance de aprender um pouco mais sobre saúde preventiva; e algum dia, quem sabe, poderão até lutar por uma vaga na universidade pública, com o auxílio do cursinho pré-vestibular.

Apesar de estar voltada para a população de um dos bairros mais carentes de Bauru, a iniciativa não tem nada de assistencial. “Na verdade, o que buscamos é uma forma de capacitar os moradores para que eles possam superar a condição de pobreza em que vivem. Nossa idéia é fazer com que, daqui alguns anos - quando a universidade já tiver se retirado, depois de cumprir o seu papel -, eles possam levar as coisas adiante por conta própria”, explica Antônio Francisco Marques, professor do departamento de educação da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, um dos coordenadores do projeto.

Ações não visam assistencialismo

Apesar de grande parte dos projetos de extensão universitária ser desenvolvida junto às populações carentes da periferia, profissionais ligados às instituições de ensino superior ressalvam que essas iniciativas não podem ser encaradas como medidas assistencialistas.

“Os projetos de extensão são uma forma de promover a transformação social por meio do conhecimento produzido no interior da universidade”, explica o professor João Carlos Albino, vice-diretor da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru.

Gérson Francisco de Assis, presidente da comissão de cultura e extensão da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP), lembra que a realização de projetos voltados à comunidade é essencial para as instituições públicas de ensino superior.

“Elas são mantidas com o dinheiro do contribuinte e, portanto, precisam dar um retorno à comunidade, socializando esse conhecimento que é produzido por meio das pesquisas acadêmicas”, ressalta ele.

Mesmo profissionais ligados a faculdades privadas - que, em tese, não teriam esse compromisso com o contribuinte - enxergam a extensão como uma obrigação das instituições de ensino. “As pessoas ainda têm a idéia equivocada de que nossos clientes são os alunos. Na verdade, trabalhamos visando o bem da sociedade como um todo”, reforça Chiara Ranieri, diretora-acadêmica das Faculdades Integradas de Bauru (FIB).

Ricardo Carrijo, diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da Instituição Toledo de Ensino (ITE), concorda com essa visão. Para ele, o contato com os projetos de responsabilidade social favorece, inclusive, a formação profissional dos estudantes.

“A extensão permite que os alunos coloquem em prática os conceitos teóricos adquiridos em sala de aula. Inseridos nessas ações, eles terão a oportunidade de entrar em contato com uma realidade social distante da que estão acostumados”, avalia. (RF)

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