Bairros

Bauruenses resgatam sorrisos em Rondônia

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Os bauruenses não são os únicos favorecidos pelos projetos de extensão desenvolvidos pelas instituições de ensino superior aqui existentes. Graças a uma iniciativa da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP), os moradores de Montenegro (RO) podem agora sorrir despreocupados. Alguém poderia questionar o porquê da universidade levar um projeto dessa magnitude a um local tão distante, sendo que na periferia de Bauru há milhares de pessoas igualmente paupérrimas. A reposta é simples: perdida em meio à zona rural de um dos Estados mais distantes da federação brasileira, a população da pequena cidade de aproximadamente 12 mil habitantes não tinha acesso a serviços essenciais de saúde.

“Embora aqui em Bauru existam muita gente vivendo em situação de pobreza, existem diversos hospitais de qualidade à disposição do público. Lá em Montenegro não há absolutamente nada. Mesmo que tenha dinheiro e esteja disposta a pagar, a pessoa não terá como acessar os serviços básicos de saúde. Como membros de uma universidade pública, sustentada pelo dinheiro do contribuinte, é nosso dever levar o atendimento até essa população carente”, explica Magali de Lourdes Caldana, professora do departamento de fonoaudiologia da FOB.

No local quase não existiam médicos ou enfermeiros. Dentistas e fonoaudiólogos eram mais raros ainda de ser encontrados. Os moradores de Montenegro tiveram de esperar muitos anos para que essa situação abandono começasse a mudar e a universidade teve papel crucial para que essa transformação pudesse ter início. Nos anos 90, o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP de São Paulo montou uma espécie de posto avançado na cidade para pesquisar doenças tropicais. Paralelo a isso, os estudiosos passaram a disponibilizar atendimento de saúde gratuito à população.

Por algum tempo, porém, o serviços oferecidos se restringiram apenas aos cuidados médicos. Quando o dente incomodava, os montenegrinos eram obrigados a recorrer ao trabalho dos “práticos” (pessoas que atuam como profissionais formados, apesar de nunca haverem cursado faculdade), caso quisessem se livrar da dor. Em 2002, a FOB tornou-se parceira do projeto e passou a enviar semestralmente ao local grupos de 40 profissionais (entre professores e alunos) das áreas de fonoaudiologia e odontologia. O dentista Ricardo Pianta tem 25 anos e participa do programa desde 2003. Em seus primeiros anos de projeto, ele teve de vivenciar situações, no mínimo, chocantes.

“Certa vez fui obrigado a arrancar 14 dentes da boca de uma rapaz de 28 anos, pois estavam completamente estragados”, recorda, revoltado. Situações como a descrita pelo dentista são reflexo do abandono a que a população de Montenegro esteve submetida por todos esses anos.

Pianta, que atualmente desenvolve projeto de mestrado em saúde coletiva pela FOB, conta que, no começo, era difícil fazer com que os moradores aceitassem se submeter aos cuidados dos profissionais formados. “Entre eles havia muita resistência, por exemplo, ao uso da anestesia. Por muito tempo, os práticos difundiram entre as pessoas a idéia de que o uso da anestesia poderia tornar os procedimentos ainda mais dolorosos”, diz ele.

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