Cultura

Histórias musicadas

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

Caipira, ele não é; sertanejo... hum... também não. Essas características existem, mas definem melhor Tonico & Tinoco e Chitãozinho & Xororó. “Eu conto histórias”, resume o compositor, cantor e violeiro Renato Teixeira. Há 40 anos musicando a história do Interior de São Paulo, o músico faz um apanhado de sua carreira no CD ao Vivo e no primeiro DVD de sua trajetória “Renato Teixeira - no Auditório Ibirapuera”, lançado pela Som Livre, da Globo. Grande parte das músicas - 14 faixas no CD e 20 canções no DVD - são velhas conhecidas do público, seja pela voz do compositor ou de intérpretes. Destaques para “Amanheceu, peguei a viola”; “Sina de Violeiro” e “Um Violeiro Toca” e “Tocando em frente”, feitas em parceria com Almir Sater.

Embora diga que cada vez que toca é de um jeito novo, para a produção, Teixeira procurou não modificar os arranjos originais das músicas. “Quis fazer algo simples, acústico, sem muita complicação”, explica em entrevista por telefone ao JC Cultura.

Para fazer parte do show, o artista convidou músicos importantes de sua longa trajetória. Pena Branca, “amigo de velhos anos”, participa da faixa “Quando o Amor se Vai”. Joanna canta um dos principais sucessos de Teixeira, a romântica “Recado”. Chitãozinho & Xororó fazem uma participação memorável em “Frete” e o argentino Leon Gieco divide com o compositor a canção “La Cigarra”.

O momento mágico do show é quando argentino e brasileiros se encontraram no palco para cantar “Romaria”. “O que se viu foi algo tão emocionante, que só o DVD pode transmitir. Não basta ouvir, é preciso vivenciar”, cita o material de divulgação. A gravação foi realizada no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, em agosto do ano passado. “Quase não houve interferência, pós-produção”, salienta o músico.

Com um projeto de marketing muito bem elaborado, os shows de lançamento do CD e DVD começaram na semana passada nas grandes capitais brasileiras. Em seguida, a Rede Globo deve iniciar a inserção de chamadas nas afiliadas do Interior. “A divulgação pela mídia está sendo muito boa”, comemora o músico. 40 anos

O CD e DVD “Renato Teixeira - no Auditório Ibirapuera” deixam em evidência a vocação do cantor para contar histórias. “A idéia do disco é que as pessoas compreendam o folk, música em que eu e o Almir Sater somos veteranos no Brasil. Bob Dylan faz isso nos Estados Unidos. Acho que todos os países do mundo têm esse tipo de música”, coloca Teixeira.

Além de celebrar os 40 anos de carreira, o novo projeto tem um sabor especial ao unir na profissão o pai Renato Teixeira e os filhos João Lavraz e Chico Teixeira. “Nunca imaginei poder fazer isso! É muito prazeroso trabalhar ao lado de quem se ama; poder viajar ao lado deles por todo o Brasil e mostrar aos meus filhos como é a profissão”, diz o músico, emocionado.

Sem deixar de compor, Teixeira pretende começar um novo trabalho no final do ano. “Eu vou com a carreira até quando eu achar que é conveniente. Daí eu paro e descanso, porque é pauleira, viu, viver da música por 40 anos não é fácil”, afirma.

Arte descomprometida

Defensor e divulgador da cultura do Interior de São Paulo, definida pelo músico como “espinha dorsal da cultura brasileira”, Teixeira lamenta o descomprometimento com a arte no Brasil. “Temos compositores geniais que não conseguiram espaço para mostrar seu trabalho”, afirma.

O músico ainda diz mais: “Hoje em dia há uma manipulação da arte por meio das empresas. Elas pegam o axé, por exemplo, e promovem à exaustão só para vender cerveja. Para mim, isso é placebo”, contesta o artista. Na opinião dele, o axé, por mérito próprio, não teria condições de colocar 60 mil pessoas no Maracanã, numa referência direta a Ivete Sangalo.

O “furacão baiano” é novamente atacado pelo músico quando analisa a fama. “Se você acreditar que o reconhecimento do público diz alguma coisa, então você vai achar que a Ivete Sangalo é a melhor cantora do Brasil! Eu faço música pelo prazer de compor. Se não tivesse nada para dizer, já teria pegado minha viola, colocado no saco e me aposentado”, finaliza Teixeira.

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