Heiligendamm - A polêmica em torno do escudo antimísseis não estava na agenda oficial do G8, mas o russo Vladimir Putin tratou de cuidar para que ela não fosse esquecida. Fora isso - e a frustada esperança da Alemanha de mudar a opinião do americano George W. Bush sobre aquecimento global - a cúpula obedeceu ao roteiro pré-agendado. Como, aliás, costuma ocorrer em quase todas as reuniões desse tipo.
Para se ter uma idéia de como presidentes e premiês são pautados nesses encontros, no G8 os diplomatas que preparam as discussões prévias são chamados de “sherpas”, como os guias que conduzem os alpinistas que escalam o Himalaia. Os sherpas discutem o que é prioritário e o que não deve ser discutido para não “ferir” ninguém.
Aos mandatários, sobra seguir o roteiro, azeitar a relação com outros líderes, conhecer os recém-chegados ao clube e desatar nós. A regra diplomática é evitar surpresas.
Acordos sobre medidas para conter o aquecimento global e negociações para aplacar a tensão entre Estados Unidos e Rússia foram considerados bem-sucedidos na cúpula, que se encerrou ontem após três dias de reuniões.
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, lamentou ontem que não tenha sido alcançado nenhum progresso a respeito de Kosovo. Sarkozy tentou sem sucesso convencer a Rússia - que é contrária ao plano da ONU de oferecer uma independência tutelada à Província - a reconhecer que a separação entre Kosovo e a Sérvia é “inevitável”.
África
Antes de encerrar a reunião na Alemanha, os países do G8 renovaram o compromisso de destinar US$ 60 bilhões em ajuda à África, especialmente em sua luta contra doenças como a Aids e a malária.
“Nós cumpriremos nossas promessas, mas também esperamos que se possa controlar o que os países africanos farão com o dinheiro”, afirmou Merkel, que falou à imprensa ontem ao lado do presidente de Gana e da União Africana, John A. Kufour.
O compromisso irritou membros de organizações humanitárias que acompanhavam as evoluções da cúpula. De acordo com os críticos, a soma de US$ 60 bilhões acordada não cumpre um acordo anterior, firmado em 2005 na Escócia, que previa dobrar a ajuda humanitária à África.
“Estou exasperado”, disse o ativista e músico Bono Vox. “Acho que usaram deliberadamente uma linguagem imprecisa. Estão deliberadamente nos enganando”, completou ele.
O acordo da cúpula não especifica datas para a liberação do montante e diz apenas que o dinheiro será enviado “durante os próximos anos”.
O presidente dos EUA, George W. Bush, não compareceu a algumas sessões da cúpula sobre a África devido a um mal-estar.
Clima
O acordo firmado ontem sobre medidas para deter o avanço das mudanças climáticas foi considerado um “grande êxito” por Merkel e outros líderes do G8, como Sarkozy e o premiê britânico, Tony Blair.
Apesar da oratória, na prática o acordo não fixou a obrigatoriedade de redução pela metade das emissões de gases do efeito estufa até 2050, como pretendia Merkel. Sob pressão dos EUA, o texto do acordo diz apenas que os países “considerarão seriamente” estes valores de redução.
EUA x Rússia
Após meses de tensão, a cúpula do G8 trouxe uma nova esperança para a disputa entre EUA e Rússia a respeito do sistema de defesa americano que a Casa Branca quer implementar no Leste Europeu.
O plano enfrenta dura resistência da Rússia, que ameaçou retaliações caso os EUA levem adiante a implantação do sistema. Anteontem, porém, Putin apresentou uma contraproposta inesperada para substituir o plano: ele propôs a Bush que os dois países utilizem conjuntamente o radar de Gabalá (Azerbaijão), que permite detectar a trajetória de mísseis disparados a partir do Irã ou do Iraque.