Falta motivação, os empregados estão descrentes com as mudanças empresariais e se sentem pouco reconhecidos, desconfiados da própria competência? A culpa pode ser do chefe. Quem trabalha em empresa, seja como empregado, gerente ou consultor, certamente já se deparou com um grande número de pessoas que responderiam afirmativamente a essas questões.
Como é difícil falar sobre isso no ambiente de trabalho, na intimidade do lar ou protegidas pelo sigilo de uma conversa ou entrevista com profissionais de recursos humanos, as pessoas revelam angústia diante dos desafios que lhes são colocados pelo ambiente empresarial.
A forte exigência de competitividade – fator de sobrevivência de qualquer empresa – aliada à necessidade de obter os ganhos de escala, sob a perspectiva da produção por demanda, exigiram maior flexibilização e inovação das empresas. Isso provocou forte pressão sobre o efetivo de pessoal, somada à redução dos níveis de comando e pelo foco nas competências distintivas de cada instituição, outorgando ao mercado atividades que este poderia oferecer com maior qualidade e menor custo.
Chamados a adequarem-se a esse novo tempo, os profissionais viram-se na contingência de desaprender o que tinham aprendido, de entender o funcionamento do negócio sob uma nova ótica, até então desconhecida ou sequer desejada. Isso afetou também o gerente, que teve de abandonar suas funções clássicas de chefia para assumir as funções de liderança, agora entendida como elemento-chave para interligar os sistemas sociais, técnicos, humanos e produtivos.
A passagem de um modelo “chefe” para um modelo “líder” não se dá pela mera enunciação de características e dons ou pela desejo da alta administração, mas por teorias e técnicas necessárias para criar essas novas competências. Para tanto, a área de recursos humanos provê ferramentas e instrumentos que consolidem a nova visão. Além disso, o processo de aprendizagem – que é permanente – depende o indivíduo, de seu desejo, de seus limites, de sua vontade de superá-los.
Comunicação
De acordo com os professores de psicologia organizacional e do trabalho da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luiz Carlos Canêo Edward Goulart Júnior e Maria Cristina Frollini Lunardelli, gerenciar pessoas é uma tarefa complexa, pois há diferenças entre os comportamentos sustentados pelo grupo e as cobranças feitas pela organização.
“A comunicação é um elemento fundamental para um gerenciamento adequado, desde que os gerentes conheçam as pessoas que compõem o grupo e as regras que norteiam os comportamentos dentro deste”, apontam os professores em artigo publicado no livro “Contribuições do psicólogo para a promoção de saúde, qualidade de vida do trabalhador e desenvolvimento das organizações”, desenvolvido por eles em parceria com a subsede Bauru do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). Este trabalho está sendo divulgado em uma série de reportagens, publicada semanalmente pelo JC.
Os psicólogos apontam que é necessário um tipo de comunicação aberta por parte da gerência, na qual ouvir é tão importante quanto falar, com real envolvimento, para que possam ser estabelecidas normas de convivência que permitam alcançar os objetivos dos diversos grupos na organização. “O papel do gerente, assim, é estimular nas pessoas com quem trabalha esse espírito de equipe, incentivando sempre a autonomia da mesma e proporcionando um ambiente de trabalho no qual é possível crescer e aprender sempre”, apontam.
Para quer isso aconteça, no entanto, é necessário que haja um processo de educação de toda empresa, incluindo os mais altos escalões, que precisam compreender quais mudanças são necessárias para que o gerente possa trabalhar, de maneira a formar equipes comprometidas com a organização e com as mudanças implantadas.
O papel do psicólogo neste caso é auxiliar esse processo de educação, colaborando com o gerente na compreensão e no desenvolvimento de habilidades. “Acreditamos, assim, que o essencial para um programa de desenvolvimento gerencial bem sucedido, que permita a ampliação dos ideais da organização e o melhor aproveitamento de seu potencial humano, é a valorização constante desse potencial, mostrando sempre aos gerentes que estão lidando com pessoas e que é delas que a organização depende para prosperar”, destacam os professores.