No outono-inverno, as temperaturas caem e sinalizam a chegada das festas juninas, uma importante manifestação cultural brasileira que surgiu nas paróquias e fazendas e, com o urbanização, se tornou destaque no calendário das escolas, comunidades, clubes e igrejas. Seja para comemorar a tradição popular ou celebrar os santos do mês, Antônio, João e Pedro, as festas juninas trazem à tona uma reflexão sobre as tradições caipiras e os costumes típicos das cidades do Interior.
Entre eles, o hábito de se reunir com os familiares e amigos para rezar o terço e festejar a boa colheita com muita dança, música sertaneja e comidas típicas, conta o violeiro e catireiro Benedito Antônio Domingues, mais conhecido como seu Toninho. Nascido em Bauru, ele morou com seus pais e irmãos em uma fazenda da região e teve contato com a cultura caipira desde a infância.
“Cresci vendo meu pai tocar viola. Lembro que, naquela época, as festas de casamento eram animadas pela catira. Quando era moço, eu dançava catira e também forró”, diz. “Primeiro nós rezávamos o terço e depois começava a festa, com muita música, quentão e churrasco e catira. A festa começava às dez horas da noite e só terminava às seis da manhã”, conta.
O catireiro Benedito Botelho de Souza é fã das tradições caipiras e lembra com carinho da vida que tinha em Nogueira, sua cidade de origem, e em Bauru, onde mora até hoje. “Meu pai era boiadeiro, meu tio tocava berrante. Minha família gostava muito de música sertaneja e acho que nasci pra tocar violão e viola”, comenta.
Benedito e Seu Toninho, são membros do grupo Caçula de Catira, que teve início em 1958, em Bauru. Devido algumas dificuldades, a entidade interrompeu seus trabalhos por alguma anos, mas em 1999 retornou com força total, reunindo catireiros de várias partes da cidade e da região. Seu Toninho, atual presidente, foi um dos responsáveis pela sobrevivência do grupo. “Nosso objetivo é preservar a música sertaneja raiz, de viola, e a catira”, diz o violeiro, que mantém uma dupla sertaneja com seu irmão, Braulino Domingues.
A viola e a música caipira também fazem parte da vida do artesão e violeiro Levi Ramiro. Nascido em Uru, Interior de São Paulo, ele começou a tocar violão na adolescência e não parou mais. Em 1995, iniciou carreira profissional e, anos mais tarde, gravou três CDs. Detalhe: além de compor e interpretar, ele mesmo fabrica as próprias violas.
“Nas letras, gosto de celebrar a poesia interiorana e preservar os valores da cultura caipira. Estamos bem urbanizados, mas a solidariedade, o cuidado com a natureza e a tranqüilidade do campo são valores que devem permanecer”, diz. Levi já viveu em metrópoles, mas revela que prefere o Interior. “Moro em Estiva, distrito de Pirajuí, ao lado de uma fazenda. É bem tranqüilo”, conta.
Por meio da música, Levi busca preservar as tradições caipiras. “Meu pai é filho de português e se casou com minha mãe, que é brasileira e dava aulas em uma fazenda. Sempre participei de festas juninas, que foram trazidas pelos portugueses para comemorar a colheita do milho. Hoje, estes eventos sofreram modificações, mas ainda procuramos preservar a cultura popular”, afirma.
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Origem da catira
A catira, também conhecida como cateretê ou bate-pé, representa uma manifestação da cultura regional em que seus componentes dançam ao som da moda de viola ou recortados, com passos simétricos ritmados por palmas e sapateados. Na dança, os participantes posicionam-se em fileiras, tendo à frente dois violeiros que cantam “modas de viola”. Eles relatam em seus versos assuntos variados, como amor, sátira e costumes locais.
A catira remonta à época colonial do Brasil e se mantém até hoje no Interior dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás. A dança é considerada rural e costuma-se dizer que o caipira do Interior paulista encontrava no cateretê a fuga da monotonia da vida na roça. Há correntes que afirmam que a origem da catira é africana, mas muitos o consideram uma dança indígena.
Da Redação