Após meia hora de conversa com Luciana Gonçalves, a impressão que se tem é de que ela é capaz de fazer qualquer coisa, de pintar um quadro como um mestre até pilotar com tanque de guerra. O mais curioso é que o seu poder de realização não se torna evidente de forma agressiva, ao contrário, está na sutileza, na maneira simples e delicada como ela fala sobre todas as atividades que exerce, ou já exerceu, como se elas não fossem nada além de prazer.
Advogada por formação, Luciana tem um currículo eclético: é roteirista de televisão, cinema e rádio, publicitária e especialista em marketing, além de já ter atuado como radialista e professora universitária. Suas paixões são a escrita e a fotografia, ambas praticadas desde a infância, mas também adora tênis, moda e o convívio com animais.
Antes de qualquer coisa, ela parece possuir o genuíno espírito de artista, que se preocupa mais com a realização da obra e as sensações que a mesma vai despertar, do que com o valor financeiro que vão lhe atribuir. Esse perfil faz dela uma trabalhadora eficiente e discreta, totalmente avessa à auto-promoção, qualidade raríssima no mundo de hoje. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Você tem um currículo extenso com atuação em setores diversos. Qual a sua atividade hoje em dia?
Luciana Gonçalves - Atualmente eu sou roteirista, meu forte é roteiro de televisão e cinema. Tenho feito roteiros para grupos de São Paulo. Desde que saí da Globo presto serviços para o mercado free lancer, produtoras e produtores. Encerrei no mês passado a minha participação no “Conexão 96” (programa de entrevistas do Padre Beto na 96 FM) e sou 100% profissional de mar-keting, é o meu forte hoje. Trabalho com marketing pessoal e institucional, marketing de eventos, social e ambiental, além do marketing cultural, com a produção de eventos relacionados a arte, música, literatura... Além disso há muita multimídia, DVD-Rom e Internet. A Globo me formou uma pessoa multiprofissional que, por exemplo, ao elaborar um site para uma empresa, já faz tudo, elabora o mapa, escreve o texto, fotografa tudo e leva para o web designer. Faço tudo, mas claro, respeitando as especialidades de cada um, adoro trabalhar em equipe.
JC - Qual é sua formação?
Luciana - Sou formada em direito na ITE. Fiz o curso porque gostava de escrever. Quando comecei a perceber que tinha que separar casal, separar sócio, disse “não vai dar”, percebi que não tinha nada a ver com direito, então exerci muito pouco. Estava no último ano de faculdade quando recebi uma proposta para trabalhar na Rede Globo, entrei e descobri que minha praia era ali. Me formei e fiquei um ano estagiando na Globo e trabalhando com direito até que optei pela televisão. Eu era coordenadora de produção.
JC - O que você fazia?
Luciana - Escrevia roteiros, dirigia, produzia, editava... A Globo foi minha grande faculdade porque lá aprendi desde iluminação à direção de atores, passando por maquiagem e roteiro. Passava dia e noite absorvendo e estudando aquele meio. Fiz todos os cursos que apareceram. Foi ali que me tornei radialista, na época não havia faculdade e se conseguia a carteirinha depois de um tempo trabalhando na área. Quando a Unesp inaugurou o curso de radialismo eles ainda não tinham professores, então chamaram os radialistas que estavam no mercado. Eu fui uma das primeiras professoras, dei aula de cenografia.
JC - Na época você trabalhava em rádio também?
Luciana - Trabalhava com a 96 FM. Trabalho desde 1987 com a rádio, primeiro prestando serviço para clientes dentro da rádio como produtora publicitária de esporte, uma coisa que sempre fiz. Depois lancei o “João Dez e Meia” e agora, há dois anos, trabalhei no “Conexão 96”, então sempre tive muita paixão por rádio. Apesar de minha formação ter sido voltada para a imagem, o som e a sonoplastia sempre me interessaram muito. Foi uma experiência maravilhosa.
JC - Onde entrou a publicidade?
Luciana - Quando eu estava na Globo, o coordenador de produção atendia clientes, então a gente fazia publicidade diretamente. Fui estudando tudo o que dizia respeito a publicidade para poder atender os clientes. Quando saí de lá, como tinha feito especialização em marketing, saí oferecendo para as agências o meu trabalho de produção publicitária em rádio e TV. Hoje descobri que sou muito mais profissional de marketing do que radialista porque respiro isso, parece que está nas minhas veias. Daí saí prestando serviço para as empresas, para clientes de mar-keting pessoal e usando as ferramentas da publicidade de rádio e TV e depois Internet. Mas nunca fui publicitária no sentido amplo da palavra.
JC - Não é difícil ouvir termo marketeiro dito de forma pejorativa, se referindo a uma pessoa especialista em enganação? Como você vê isso?
Luciana - Eu acredito que o termo ficou pejorativo porque, para o capitalismo conseguir colocar no mercado tudo o que surgiu, as técnicas foram além da ética. Entrou-se na “empurroterapia” das coisas e isso, muitas vezes foi aliado a estratégias de marketing. O marketing começou a observar o que o público não tinha e os produtos começaram a sair das fábricas para atender coisas que não existiam. Na verdade não eram necessidades, nem desejos. Então essa tendência do marketing de criar essa ansiedade nas pessoas que veio com a mola propulsora do capitalismo acabou gerando primeiro, uma má impressão da terminologia. Acredito também que o termo ficou muito voltado para a política e o mundo das celebridades. Então começou-se a ver o artificial transformado em alguma coisa e esse conceito contaminou muito a palavra marketing, mas marketing não é isso, é estratégia. Ou você tem boas estratégias ou tem estratégias inadequadas. O bom marketing é o que faz com que o consumidor perceba que ele pode ser melhor e mais feliz. Que dê a ele oportunidade de entrar em contato com algo que lhe faça mais feliz. Isso é uma tendência ética do marketing. Não empurrar para satisfazer a indústria, mas encontrar um canal para levar o seu produto até a mão de quem vai precisar dele, não de qualquer um. Esse é o marketing que eu acredito.
JC - Você faz o marketing do Aeroclube. Há alguns meses houve muita polêmica sobre a real necessidade de mantê-lo naquela região da cidade após a inauguração do novo aeroporto. Hoje a questão parece superada.
Luciana - O presidente do Aeroclube me convidou em outubro do ano passado para trabalhar melhor a relação do Aeroclube com o público. Fiquei apaixonada pela história, pelo vôo a vela, pela emoção de voar, pelas histórias que existem lá dentro, pela instituição, pelo idealismo... Começamos a trabalhar o mar-keting em todos os sentidos, o social, cultural, de relacionamento, de eventos. Foi uma oportunidade extremamente rica, com muitas opções. Há muito o que se fazer ainda, por exemplo o marketing educacional. Antes não havia nada. Acho que a preocupação deles sempre foi voar e eles não tinham foco em publicidade e propaganda. Ele me chamou para trabalhar lá em outubro, um mês antes dos problemas que se tornaram notórios. Foi uma coincidência, tanto que o projeto que eu apresentei previa ações em um prazo de seis meses. Quando a coisa começou se desenrolar daquela maneira, puxamos toda a programação e fizemos tudo ao mesmo tempo. Era necessário para que o público percebesse quem nós éramos, para que não houvesse um julgamento errado e precipitado.
JC - Deu resultado?
Luciana - Eu, particularmente, tenho uma visão muito positiva em relação ao Aeroclube. Acho que é uma instituição bauruense tradicional. Seria a mesma coisa que cortar o Corcovado do Rio de Janeiro. Não vejo como o Aeroclube sair de lá ou não existir o vínculo que existe com o público hoje. Acho que houve um despertar, um reapaixonamento. Eles estão aí desde a década de 40 mas, de repente, houve uma redescoberta e foi porque abrimos as portas, isso é comum.
JC - Você sempre foi assim, capaz de gerenciar várias atividades ao mesmo tempo?
Luciana - Sim, sempre fiz várias coisas ao mesmo tempo, detestando rotina e procurando absorver o máximo de tudo, por isso minha entrega é sempre muito grande. Preciso estar apaixonada pelo que faço senão não consigo fazer as coisas da maneira como sinto que tenho que fazer. Me entrego profundamente às coisas. A minha principal característica de vida é a curiosidade, sou muito curiosa. A curiosidade me desperta em direção à coisa e quanto mais eu aprendo, mais eu fico gostando da coisa até chegar no fim, até eu tirar tudo daquilo. Isso para mim é um mote de trabalho. Sinto que preciso ter várias direções de trabalho, assim, com essa entrega. Não suportaria fazer a mesma coisa o tempo todo.
JC - Você é perfeccionista?
Luciana - Não, de maneira alguma. Odeio perfeccionismo, a pessoa que prima pela criatividade não pode se preocupar com isso. Perfeccionismo esgota energia de alguma forma e de uma maneira inadequada.
JC - Em quase todas as suas atividades você atuou ou atua nos bastidores. Nunca pensou em aparecer?
Luciana - Sempre estive atrás. Pode começar pelo fato de ser filha caçula, ou seja, tem alguém na frente. Mas tem também o fato de gostar de escrever desde pequena e de fotografar, em ambos os casos, por influência do meu pai. Sempre tive problema com o tempo. Sempre o considerei meu inimigo e me flagrei tentando voltar, ficava editando o tempo. Nunca quis estar no agora. A fotografia entrou na minha vida porque eu sentia que fotografando eu guardava o tempo e assim fui ficando anos atrás do obturador. Fui ficando onipresente, onisciente. A mesma coisa com os textos que eu escrevia. A minha imaginação fazia com que eu construísse coisas que não existiam e, obviamente, eu ficava atrás. Então escrever e fotografar já me deixava atrás, quando eu entrei para a televisão fui totalmente para trás. Para mim, o bom profissional, o bom produtor de eventos, o bom marketeiro, o bom fotógrafo, o bom escritor, é o que não aparece. É alguém que produz algo que você tem certeza que por mágica apareceu. Quando esses caras aparecem fazendo é porque a coisa não está legal. A última pessoa que deve aparecer é quem faz. Nos bastidores de TV ou do cinema mais ainda. Você tem que assistir ao filme ou ao programa sem sentir a técnica. Se você não sentir a técnica, não ficar incomodado com o movimento de câmera, com o corte ou com a atuação, você é levado para dentro da cena sem lembrar que existe um cara iluminando, outro dirigindo. Esse é o objetivo, é o modelo perfeito. Então eu fiquei “bastidor” e me entendo como “bastidor” em tudo o que eu faço.
JC - Satisfaz apenas saber que foi você quem criou?
Luciana - Satisfaz completamente. A posição de estar do lado de fora vendo algo que você fez é muito prazerosa, muito interessante. Eu me ausento das coisas que eu faço para olhar do lado de fora e ver que as pessoas estão felizes, animadas e tudo está dando certo. Quando eu escrevo o roteiro, por exemplo, o que eu coloco ali é o que o cineasta vai filmar, o que o ator vai dizer, o que o diretor vai tentar amarrar e o que o editor vai montar, na seqüência que eu escrevi. Então eu imagino o filme pronto a partir do nada. O prazer que eu tenho é ver que o que sai de mim do zero e que chega ao telespectador e emociona, saiu de mim. É muito gostoso, é fazer um filho sozinha. Claro que tem um monte de gente pondo contribuição e isso é o interessante.
JC - Você nunca pensou em ser fotógrafa profissional?
Luciana - Fiz algumas coisas para amigos que me catalogam como profissional. Mas eu jamais fui profissional. Eu sou só uma pessoa que tem fascínio, facilidade, sei lidar com gente, sei ver um ângulo bacana, ressaltar aquela fotogenia que ela tem... Ninguém é não-fotogênico, existem ângulos de fotogenia. Gosto de procurar esses ângulos nas pessoas e gosto que elas se sintam bem olhando para as suas fotos. Eu procuro o apaixonável. Quem faz um book tem uma experiência idílica, de ser uma estrela de Hollywood por algum tempo. Aquele é um momento ímpar e o resultado daquilo é uma coisa muito boa. Eu adoro.
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Perfil
Nome completo: Luciana Raquel Gonçalves Silva Bergamini
Local de nascimento: Bauru
Idade: 41 anos
Esposo: Nelson Tarantino Bergamini
Hobby: Fotografia
Livro de cabeceira: Não tenho um, atualmente leio muito sobre marketing
Filme preferido: “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore
Estilo musical predileto: Jazz, meu intérprete favorito é John Coltrane
Times de coração: Não tenho porque, na verdade, não gosto de futebol. Gosto de tênis
Para quem daria nota 10: Para minhas duas sobrinhas, Isadora e Carolina, que, para mim, são perfeitas em tudo
Para quem daria nota 0: Não daria 0 para ninguém. Todo mundo tem uma nota boa em alguma coisa.
E-mail: lugsilva@uol.com.br