Consideradas ilhas de prosperidade em meio à miséria que toma conta da educação no Brasil, as universidades públicas do Estado de São Paulo vêm recebendo, a cada ano que passa, maior contigente de alunos de baixa renda. Cursos estruturados para receber os filhos das classes abastadas começam, aos poucos, a ser freqüentados por jovens nascidos em famílias pobres.
Se antigamente a maioria dos pais tinha condições de bancar os estudos dos filhos, hoje a realidade é outra: sem apoio das instituições de ensino, cursar uma universidade pública se torna tarefa quase impossível para uma pessoa de baixa renda.
Em Bauru, esse problema é fácil de ser notado, uma vez que a cidade conta com o maior câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp). São cerca de 6.000 alunos distribuídos em 19 cursos de graduação. Boa parte desses estudantes não é nascida no município: são pessoas vindas de outra parte do Estado e até mesmo do País.
Para ter acesso ao ensino superior gratuito e de qualidade esses jovens têm de arcar com um número considerável de despesas com livros e materiais didáticos. Além disso, precisam reservar dinheiro para comida, transporte, lazer e, é claro, moradia. Quem pode, recorre ao apoio providencial dos pais. Quem pode, tem de arrumar emprego, pedir ajuda para os colegas ou então desistir do curso, pois obter apoio da universidade, atualmente, é algo bastante difícil - em alguns casos, quase impossível.
Hoje, a estrutura assistencial oferecida pela Unesp de Bauru a seus alunos de baixa renda é precária e se resume, basicamente, a dois custeios: o auxílio-aluguel, de R$ 100,00 mensais, e as bolsas de apoio ao estudante (PAE), no valor de R$ 175,00 ao mês.
Natural de São Vicente (Litoral), Adriana Nascimento de Jesus, 24 anos, estuda biologia na Unesp de Bauru. Com os R$ 175,00 mensais pagos pela universidade, ela consegue bancar parte de suas despesas com aluguel (R$ 96,00 ao mês, incluindo condomínio). Ela divide um apartamento no Residencial Vila Verde com mais três garotas e costuma ir a pé para a faculdade, economizando assim o dinheiro da condução (R$ 3,50 ao dia, ida e volta).
A falta de assistência estudantil não é regra nas instituições públicas de ensino superior paulistas. A Universidade de São Paulo (USP) disponibiliza moradias gratuitas e restaurantes subsidiados em todos os seus câmpus. O conjunto residencial instalado em Bauru, por exemplo, tem capacidade para receber 72 estudantes de graduação.
Isso equivale a dizer que aproximadamente 20% dos 360 alunos da USP de Bauru teriam condições de utilizar o conjunto residencial. Mas hoje, a situação encontrada no câmpus é tão favorável que apenas 60 vagas se encontram de fato ocupadas.
A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) também oferece moradia a seus estudantes. Outros câmpus da Unesp, como os de Araçatuba, Assis, Marília e Rio Claro, contam com uma estrutura de apoio aos alunos bem mais farta que a existente em Bauru.
Em todos esses locais há edifícios destinados especificamente à moradia estudantil. Se a Unesp de Bauru não conta com um aparato assistencial parecido, não é por falta de mobilização dos estudantes nem por má vontade do corpo docente.
A moradia estudantil é reivindicação antiga de professores e alunos. Na última grande manifestação, realizada em 2003, dezenas de jovens permaneceram acampados no interior no câmpus durante semanas seguidas, até obterem da reitoria o compromisso de que as estruturas seriam enfim construídas.
Plantas foram projetadas e uma área foi reservada para receber as residências. Até agora, porém, a idéia não saiu do papel. “Sinceramente, não sei por que isso ocorre. O pior é que a reitoria não aceita nos receber para dar explicações”, reclama o estudante de jornalismo Diego Dacax, membro da comissão de comunicação dos estudantes na greve.
Iniciado no final do último mês, o movimento, que integra ainda funcionários e professores, tem por objetivo convencer o governador José Serra (PSDB) a revogar decretos publicados no início de sua gestão que afetam a autonomia das universidades públicas - principalmente aquele que cria a Secretaria do Ensino Superior, órgão ao qual USP, Unesp e Unicamp ficariam submetidos.