Itápolis - Itápolis, a maior produtora de laranja do País, foi invadida por imigrantes alagoanos, que buscam emprego na colheita de laranja, mas já são alvos de inquérito policial para apurar em que condições trabalhistas eles chegaram à cidade.
Aliciados nas cidades de Olivença e de Arapiraca, no Interior de Alagoas, eles chegaram nos últimos dez dias em quatro ônibus com cerca de 200 pessoas com idades entre 18 e 40 anos. Mais dois ônibus devem chegar nos próximos dias, trazendo mais cem bóias-frias. “A gente não sabe quem trouxe todo esse pessoal, mas acreditamos que de 15% a 20% dos que vão para a colheita são de fora e uma parte deles veio do Nordeste”, disse Valdir Butarello, presidente do Sindicato Rural de Itápolis.
A expansão do setor sucroalcooleiro na região de Itápolis deixou os produtores sem colhedores de laranja. Nos últimos três anos, a cana ocupava 2 mil hectares na região e hoje cobre 40 mil hectares. Neste ano, serão necessárias 7.500 pessoas para a colheita, que deve começar no próximo dia 18.
De olho nesse novo nicho de mercado de trabalho, os “gatos” - como são conhecidos empreiteiros de mão-de-obra rural - foram buscar em Alagoas bóias-frias para os laranjais.
De acordo com Butarello, a cidade não tem condições de abrigar todos os trabalhadores e muitos deles já saíram pedindo cesta básica para se manterem até o início da colheita.
Três migrantes trouxeram a mulher e os filhos e moram em casas separadas do restante do grupo. Os outros estão espalhados em imóveis dos bairros Redenção e Santa Isabel.
O Ministério Público Estadual em Itápolis decidiu investigar a relação trabalhista entre os migrantes e os “gatos”, para quem eles alegam que trabalham. “Já pedimos a instauração de inquérito policial porque estamos sabendo que eles já chegaram devendo aos empreiteiros”’, disse o promotor Carlos Eduardo Imaizumi. “O dinheiro do transporte foi adiantado, e existe a situação de dependência com o ‘gato’, o que pode significar exploração do trabalhador”, disse.
O Sindicato dos Empregados Rurais de Itápolis estima que existam 80 “gatos” na cidade. Todos possuem ônibus para levar os trabalhadores rurais às lavouras e ganham remuneração calculada sobre o frete e a quantia de caixas colhidas. “É vantagem para eles encher o ônibus com 40 pessoas e fazer com que esses trabalhadores produzam o maior número de caixas por dia”, afirmou Avelino Antônio da Cunha, presidente do sindicato que representa os bóias-frias.
Segundo ele, os “gatos” atrelam o salário dos migrantes ao percentual colhido pelo trabalhador. “Só isso já é uma exploração do trabalho alheio”, disse. “Cada ‘gato’ consegue ganhar, em média, R$ 1.600,00 por mês”, afirmou o sindicalista. “Vivemos uma triste realidade. Todos ganham pouco. O trabalhador rural vem atrás de uma ilusão. Chega aqui, e o que ganha mal dá para a sua própria subsistência.”