Tribuna do Leitor

Contra-violência


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O mês de maio de 2007 foi marcado por grande movimentação popular. Os estudantes garantindo seus direitos, os trabalhadores lutando para não lhes arrancarem os direitos que lhes restam e os excluídos reivindicando os direitos que lhes foram tirados, e tudo isso perturba a ordem. Ora, a ordem que nos é imposta diária e cotidianamente é senão a de nos contentarmos com a efemeridade do mundo capitalista. Nesse mundo de provisoriedade a única coisa que tem valor é a mercadoria. As pessoas são meros espectadores do mercado financeiro, um ser único e imutável, que exige que tudo seja alterado em seu nome.

Essa “verdade” nos é instituída com tal maquinação e brutalidade que nossos cérebros estafados de tanta superficialidade parecem buscar alívio na conformidade. Logo, nos parece natural que a ordem ferina do mercado governe nossas vidas e que o estado de miserabilidade que o ser humano é deixado pela manutenção desta, nos escape à inteligência. Vivemos num mundo governado pela barbárie do capital, que aposta na bestialização das pessoas e na sua posterior domesticação. E é contra essa ordem que os trabalhadores, estudantes, Sem-Terras, Sem-Teto, Sem-Trabalho, se levantaram nesse mês de maio. Contra a violência dos decretos do governador José Serra, que corta as verbas para o ensino, pesquisa e extensão e impõe regras à universidade pública, retirando sua autonomia. A violência dos empresários que retiram, as férias, a aposentadoria, a previdência, o direito de greve, as mínimas garantias de “estabilidade” do trabalhador, tudo em nome da produtividade. A violência do latifúndio, que obriga milhares de famílias a morrerem de fome, por que o agro-business e a monocultura de cana, de soja, etc, é muito mais lucrativa - mesmo produzindo bolsões de pobreza - do que a agricultura familiar que distribui renda e gera muito mais empregos. A violência da especulação imobiliária que expulsa as pessoas da cidade, criando as periferias e todo o processo de favelização dos grandes centros urbanos, mantendo intactos milhares de moradias em favor de uma supervalorição de mais uma mercadoria. A violência do presidente Lula que se esqueceu que esteve do lado dos oprimidos e hoje além de suas declarações sarcásticas, desqualificando os que ainda resistem à imbecilização, encaminha propostas que aprofundam cada vez mais a selvageria do capital.

Os defensores da ordem, de plantão 24h, dão as caras na tevê, nos jornais, prontos para criminalizar os movimentos sociais. Mostram as pessoas ligadas aos movimentos sociais como violentas e boçais, mas em nenhum momento mostram a origem de toda essa revolta, a violência primeira com a qual essas pessoas são submetidas repetidamente. Me assustou a entrevista do prof. e sociólogo Sérgio Adorno cedida ao Jornal “O Estado de S. Paulo” (24/05), a qual chegou inclusive a defender a utilização do aparelho repressivo do Estado, contra a ocupação da reitoria da USP. Diante da reintegração de posse, o nobre professor disse que: “O juiz agiu conforme as leis. Uma decisão judicial tem de ser cumprida” (e como sabemos, reintegração de posse não é uma medida pacífica). O coordenador do Núcleo de Estudos da Violência utiliza-se do discurso do Estado democrático de direito, defendendo a possibilidade do dialogo e do poder judiciário na resolução de tais conflitos. Mas, não me parece muito democrático quando um chefe de estado governa por decretos, medidas provisórias e outros artifícios legais. Nesse sentido, trata-se de uma atitude autoritária, onde nenhum diálogo teve a possibilidade de ser travado. Trata-se de uma atitude violenta, pois tenta conformar/deformar um determinado espaço estabelecido, através da força. A democracia se faz com a presença de todos e atitudes como essa demonstram um sinal evidente de que a ordem neoliberal é mesmo incompatível com a democracia.

Os defensores da ordem consideram a violência legitima para manter o “estado de coisas”, quando lhes são atacados os direitos de explorar e expropriar o ser humano, quando lhe são atacados os direitos de enriquecer às custas do trabalho alheio. Porém, esquecem que a violência gera a Contra-violência, e esta última está em favor da vida.

Saulo Rodrigues de Carvalho - pedagogo; professor da Rede Pública do Estado de São Paulo

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