Como nós brasileiros temos muita esperança em termos dias melhores para o nosso país, tanto na esfera política, como na esfera econômica, eu resolvi fazer uma reflexão sobre o atual momento que passa a sociedade como um todo, em relação a essa tal famigerada “globalização”, ou melhor, “barbarização”. Estou no ramo de farmácia há 29 anos, desde 1978, quando um dono de farmácia no bairro onde eu morava me deu uma oportunidade para aprender esta bonita profissão. Isso sim que era o tal “primeiro emprego”, tão pregado demagogicamente nos dias de hoje pelos nossos governantes, que na prática nunca saiu do papel.
Depois de alguns anos com uma certa experiência profissional, consegui ingressar em uma farmácia maior no centro da cidade. Nesta “época de ouro” o setor não era o que é hoje, com essa concorrência predatória.
Para se ter uma idéia, aos sábados o comércio fechava às 13h. Vocês sabem onde nós íamos após o expediente desse dia? Íamos para alguma lanchonete que na época aguardava com entusiasmo os comerciários e os clientes de uma forma em geral. Era até difícil achar lugar para sentarmos: Barrete Verde, Bar Molina, Caniati e tantas outras lanchonetes da moda da época, todas lotadas.
Que saudade desses tempos, vocês não vão acreditar, até os patrões e os empregados de outras farmácias se sentavam na mesma mesa. Que concorrência saudável. O respeito e a ética imperavam em nossos meios. Para se ter uma idéia, havia um plantão mensal para cada farmácia do setor, todos se respeitavam mutuamente.
Em 1982, ingressei numa grande rede de farmácia, chegando a trabalhar em 16 cidades, exercendo a função de gerente de filial. Foi quando nessa época a economia do Brasil começou ir de mau para o pior, quando o governo José Sarney decretou o congelamento de preços e salários. A economia caminhou de lá pra cá até o caos que estamos vendo hoje.
Como o congelamento de preços pegou a indústria e o varejo de surpresa, sendo que o governo em um passe de mágica fez desaparecer uma inflação medonha, houve um grande desabastecimento, cheguei a ver faltar aspirina nas prateleiras.
Com o passar de outros governos, a indústria e o varejo descobriram como se proteger de um novo choque econômico. Criaram então 3 tabelas de preço: a lista “a”, era o preço de fábrica, a lista “b”, preço de venda e a lista “c”, gordura para possíveis congelamentos.
Mas como não houve mais choques econômicos a partir do governo Itamar Franco, a indústria farmacêutica utilizou essa margem cedente, em forma de descontos, para as grandes distribuidoras de medicamento. Com isso as indústrias economizaram na área de logística, a distribuição para todas as farmácias do Brasil.
Mas as distribuidoras, já com uma visão globalizada, onde “quem pode mais, chora menos”, procuraram fazer parcerias com as grandes redes e algumas farmácias de grande capital, sendo que até setores que até então não faziam parte deste segmento, cresceram os olhos para abocanhar uma fatia deste mercado, como por exemplo, planos de saúde, associações e outros, deixando as médias e pequenas farmácias em situação insuportável financeiramente, levando-as a fechar, e colocar inúmeros pais de família nas estatísticas do desemprego, pois com uma concorrência na forma que está, é impossível competir com esses grandes grupos. Pode até ser legal, mas na minha visão é no mínimo “imoral”.
Mas como tudo não é eterno, nada como um dia atrás do outro. Surgiu uma luz no fim do túnel. Com a vinda dos produtos genéricos as indústrias farmacêuticas estão sentindo que não conseguem manter os lucros do passado. Por esse motivo a tendência é cortar essa tal “gordura” e acabar com os descontos para as distribuidoras. Que automaticamente cortaram os mesmos descontos aos grandes especuladores do setor farmacêutico, deixando todas as farmácias com o mesmo nível de concorrência. Assim quero ver quem vai prestar melhores serviços e preços a nossa população brasileira. E voltar a oferecer mais postos de trabalho para toda nossa categoria, que passa por momentos muito difíceis.
Assim vamos ver se esses setores especulativos estavam preocupados com os seus clientes ou com os seus lucros. Vamos aguardar...