A urbanização sem planejamento vem decretando a morte dos 11 córregos que cortam a cidade de Bauru. Como os bairros avançam até as proximidades das nascentes desses rios e, na maioria dessas localidades não existe sistema para captar águas da chuva, a enxurrada corre com voracidade pela superfície do solo, provocando erosões e assoreamento, fenômenos que podem levar à morte esses cursos d’água. E agora que Bauru está canalizando o esgoto, obra necessária para despoluir os rios, está ocorrendo um fato inusitado: a redução do volume de água – em alguns trechos, os córregos já estão secos.
Córregos como o Água do Sobrado e o Água Comprida são apenas dois exemplos do que essa equação pode provocar. Em suas cabeceiras já não existe mais água corrente. Os leitos estão secos e formam algo parecido com trilhas abertas em locais de grande circulação de pessoas. Somente centenas de metros à frente das nascentes eles voltam a ter “vida”, passando novamente a possuir leito de água corrente, mas isso em virtude do despejo de esgoto ou graças a pequenos afluentes.
É possível que a maioria dos córregos que cortam Bauru fiquem sem água em 2013, quando chegar ao fim o projeto do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Bauru, de canalização de todo o esgoto da cidade e a conclusão da estação de tratamento. “A maioria dos córregos ficará seco porque eles já estão mortos. O que passa neles hoje é esgoto”, afirma o secretário do Meio Ambiente, Rodrigo Agostinho.
Segundo ele, esse processo de “falecimento” está adiantado em vários dos rios urbanos da cidade. “Todos (os córregos) estão bastante assoreados em suas nascentes. Em muitos locais só brota água em época de chuva. E, como em alguns lugares eles já foram despoluídos, estão praticamente secos porque se acabou com o esgoto”, revela.
Esse é o caso do Água do Sobrado, que nasce na altura do Núcleo Joaquim Guilherme. Segundo Agostinho, o esgoto que poluía o manancial no local foi retirado. O reflexo disso está a cerca de 600 metros à frente da nascente. Na altura em que acaba a pavimentação da rua Moacyr Zelindo Passoni, no Jardim Jussara, existe um dispositivo chamado cachimbo (que deixa a água do rio passar e segura a areia para evitar mais assoreamento). Ali é possível caminhar no leito do riacho, que tem cerca de 2 metros de largura.
O Água do Sobrado tem quase quatro quilômetros de cumprimento e deságua no rio Bauru. Cerca de dois quilômetros à frente da nascente, na rua Shimpei Okyiama, existe outro cachimbo. Apesar da pouca força e da pequena profundidade (uma garrafa pet estava enroscada no meio do leito), ali existe água. No entanto, pelo cheiro é possível perceber que se trata de esgoto. “Ele tem outras nascentes mais abaixo, se encontra com um afluente, mas também recebe muitos dejetos”, explica o secretário. “Outro que está na mesma situação é o (córrego) Água Comprida”, completa.
Até mesmo o rio Batalha, que abastece 40% da cidade, passa por maus bocados em virtude das enxurradas que acentuam o assoreamento. Cerca de um quilômetro após a barragem onde a água é captada, na baixada da antiga estrada que liga Bauru a Piratininga, a quantidade de água é tão pequena que permite o crescimento de mato no leito do rio. Já o Rio Bauru, por ter vários afluentes, não está na lista dos que podem secar.