Em 15 de novembro de 1926 tomou posse o presidente Washington Luís, com duas grandes preocupações: a construção de estradas e a reforma financeira. A situação econômica não era boa. O café, não encontrava mercado no exterior e para garantir preços compensadores para os cafeicultores, governos passados negociaram empréstimos em condições onerosas. Não se exportava mais borracha e o cacau sofria série crise.
A situação política também não era boa. A representação popular sempre fora uma farsa e as eleições fraudulentas. Se por um lado isto mantinha os “coronéis” no poder, por outro, provocavam um desejo natural de reformas. Em 1929 começa o processo de escolha do sucessor de Washington Luís. Apresentavam-se como candidatos Júlio Prestes e Antônio Carlos de Andrada, governadores de São Paulo e Minas Gerais e Getúlio Vargas que deixava a pasta da Fazenda no Rio Grande do Sul. Os entendimentos políticos evoluíram e as forças de oposição se agruparam em torno de Vargas e do seu candidato à vice, João Pessoa.
Neste ano, uma grande crise econômica alastra-se pela Europa, atingindo São Paulo, tradicional fornecedor de café aos países estrangeiros conturbados pela depressão. Realizaram-se as eleições e seu resultado foi favorável ao paulista Júlio Prestes que não chegou a tomar posse. Em maio de 1930 aconteciam no Congresso sérias divergências entre parlamentares da oposição e a maioria governista. Em 26 de julho um fato imprevisto agravou a crise: foi assassinado no Recife, o governador da Paraíba, João Pessoa. Embora o crime fosse motivado por questões locais, como João Pessoa figurou como vice na chapa encabeçada por Vargas, sua morte provocou comoção nacional. Vinte e dois dias antes do término do mandato de Washington Luís, em 5 de outubro, Osvaldo Aranha e Flores da Cunha, com apenas 50 homens, tomam o quartel-general de Porto Alegre. Eclodia a Revolução de 30. Juarez Távora inicia o levante no Recife e em breve o Norte e o Nordeste estavam em poder dos revolucionários. Seguro de sua vitória, Távora empreende marcha rumo à região leste atravessando Alagoas, Sergipe e atingindo a Bahia.
No sul, as forças revolucionárias, agora comandadas por Getúlio Vargas, seguiam em direção a Santa Catarina e Paraná. Quando se preparavam para atacar São Paulo, um grupo de Generais e Almirantes, sediados no Rio, resolveu intervir depondo Washington Luís. Formou-se uma Junta Pacificadora que admitiu, sem resistências, a liderança de Getúlio Vargas. Em 3 de novembro, Getúlio assume o governo, em caráter provisório e com amplos poderes. Todas as Instituições Legislativas foram abolidas e os Governadores depostos. Para suas funções, Vargas nomeou interventores. Estava vitorioso o movimento que derrubou do poder os grandes latifundiários de Minas Gerais e São Paulo. Os políticos paulistas não se conformaram com a vitória da Revolução de 30. A nomeação do “estranho” João Alberto como interventor em São Paulo desencadeou uma grande propaganda contra o governo federal. A ação centralizadora de Vargas e a legalização do Partido Comunista desagradam; as elites políticas paulistas reivindicam a realização de eleições e o fim do governo provisório.
No dia 23 de maio de 1932 é realizado no Largo São Francisco um comício em prol de uma nova constituição. O comício termina em conflito armado e na Praça da República tombam quatro estudantes: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo e a sigla MMDC se transforma no grande símbolo do movimento. Em 9 de julho explode a revolta paulist: a Revolução Cons-titucionalista de 1932, um movimento contra a ditadura de Getúlio Vargas, em nome do direito, da lei e da Constituição. O levante coube aos Generais Isidoro Dias e Bertoldo Klinger.
A imprensa paulista defende a causa dos revoltosos. A população adere à rebelião e um grande número de pessoas se alista para a luta. Os paulistas produzem munição, constroem morteiros, encouraçam trens. Trinta e cinco mil homens enfrentam um contingente de cem mil soldados da União. O esperado apoio do Rio Grande do Sul e, principalmente, de Minas Gerais não veio; as derrotas se sucediam. A partir de 25 de setembro começaram os contatos para discutir um armistício, assinado em 2 de outubro, após três meses de luta. Prisões, cassações e deportações se seguem à rendição. Estatísticas oficiais apontam 830 mortos, estima-se, no entanto que, outras centenas de pessoas morreram sem constar dos registros oficiais.
Dois anos depois, Vargas percebeu que era difícil governar sem a oligarquia paulista e para não perder poder, visando conciliar as diversas tendências, convoca uma Assembléia Constituinte que, eleita pelo povo, promulga nova Carta Magna. Hoje lembramos a solidariedade em prol da causa paulista, lembramos a coragem daqueles que deixaram fluir o anseio de forjar uma sociedade livre sustentada pelo Direito. Hoje, setenta e cinco anos depois, a mediocridade se sobrepõe ao ideal dos espíritos elevados que deveriam formar a alma da nação, assim, o sentimento nacional se degenera e se corrompe. Existe a sensação de estarmos sendo explorados.
Os cidadãos estão se tornando habitantes e a Pátria regressa a condição de País. A culpa é daqueles que não têm solidariedade, daqueles que não têm coragem, daqueles que não têm ideal, daqueles que não têm amor por este País; vivem nele, mas não trabalham por ele. A culpa é daqueles que não conseguem forjar a consciência da nossa juventude; forjar o caráter de seus filhos com a certeza de que é no seio da família que a Pátria nasce e se revigora.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia - Unesp-Bauru