Brasília - O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), considera remota sua chance de escapar de um pedido de cassação de mandato no Conselho de Ética e já trabalha para tentar ser absolvido no plenário da Casa. Embora Renan não admita por enquanto a hipótese, seus aliados crêem que ele poderia ser poupado caso deixasse a presidência.
A avaliação do senador é que a maioria do Conselho de Ética está disposta a sugerir a perda de seu mandato e ele não teria muita margem de manobra para reverter esse quadro. Apesar de a votação no órgão ser secreta no caso de recomendação de cassação, é mais difícil haver traições, já que o número de senadores é pequeno, sendo mais fácil identificá-las. “Nunca exigi a presunção da inocência, fiz provas contrárias. Essas provas vão aparecer, ou no Conselho de Ética ou no plenário do Senado Federal, e demonstrarão sobejamente minha inocência”, afirmou Renan ontem.
O presidente do Senado acredita que consegue reconstruir parte de sua base de sustentação na Casa até uma eventual votação em plenário. Ele perdeu apoio ao tentar atropelar os trabalhos do Conselho de Ética. A avaliação de líderes partidários foi que a tentativa de melar o processo iria desmoralizar a instituição. Desde o início da crise, no final de maio, esta foi a semana em que Renan sofreu maiores derrotas políticas. Além de enfrentar em plenário um bombardeio de pedidos para que se afastasse do cargo, a Mesa Diretora do Senado não acatou manobra feita por ele para tentar enterrar o processo que enfrenta por indícios de quebra do decoro parlamentar. Segundo relato de um aliado, Renan disse anteontem que está levando “flechada de todo lado”.
Com um calhamaço de notas fiscais e extratos em punho, Renan voltou a se queixar ontem de descrédito de sua defesa. Ele não respondeu, entretanto, se atenderá o pedido dos relatores do conselho para que apresente novos documentos referentes às suas transações agropecuárias. O calhamaço exibido pelo alagoano, intitulado “Defesa de Renan Calheiros”, foi elaborado por seu advogado, Eduardo Ferrão, e entregue há 15 dias aos integrantes do conselho.
No caso de o conselho aprovar um pedido de cassação contra o presidente do Senado, ele ainda tem chance de derrubá-lo na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), antes do caso ir a plenário. O presidente da comissão é o senador Antonio Carlos Magalhães (DEM-BA), aliado de Renan, que no momento está licenciado por problemas de saúde.
Renan resiste em deixar o cargo e cita como exemplo o caso de Jader Barbalho (PMDB-PA), que renunciou ao mandato em 2001, acusado de desviar verba do Banpará. Para Renan, Jader foi liquidado quando deixou a presidência do Senado. Ele também alega, em conversas reservadas, que na presidência tem mais força para tentar controlar o processo. Seus principais conselheiros têm sido Jader e o senador José Sarney (PMDB-AP).
Mais documentos
A Polícia Federal pediu ontem aos relatores do processo contra Renan Calheiros (PMDB-AL) no Conselho de Ética que pressionem o presidente do Senado a apresentar notas fiscais e comprovantes de suas transações com gado referentes ao ano de 2004. A avaliação feita pelos peritos da PF em reunião com os senadores é que, sem os documentos referentes àquele ano, a contabilidade apresentada por Renan para comprovar que recebeu R$ 1,9 milhão com venda de gado não fecha.
Na prática, entretanto, ele não é obrigado a cumprir porque, como não há inquérito aberto, a atuação da PF é limitada a examinar aquilo que ele mostrar. A avaliação dos relatores é que o trâmite todo do caso deve durar cerca de 45 dias.