De repente me vi tomando onze pílulas, drágeas e comprimidos depois do jantar. Minha mulher chamou-me a atenção para o que qualificou de “absurdo”. Passei a desconfiar de algum transtorno psíquico que costumam chamar de “hipocondria”. Corri ao Larousse, que tem explicações para tudo. Descobri que hipocondria é derivada do antigo termo médico “hypochondrium”, que significa “abaixo das costelas”. No final do século 18 o termo era usado para descrever doenças cuja causa não era perfeitamente conhecida, mas que se pensava terem origem em uma zona do abdômen (os hipocôndrios).
Modernamente os cientistas descobriram que essa mania de tomar remédios, ou achar que pílulas de diferentes vitaminas são “antioxidantes” e previnem câncer, é resultado de crenças e interpretações irreais sobre sintomas ou sensações físicas. Aos domingos todos os jornais e revistas dedicam páginas e páginas para questões de cura e prevenção de doenças. A gente acaba seguindo o que recomendam as autoridades entrevistadas. O máximo que pode acontecer é engordar... Ou morrer. Depois é que nos damos conta da burrice de correr atrás das novidades farmacêuticas, sem causas médicas justificáveis. Agora inventaram uma pílula que queima a gordura acumulada na cintura. Essa adiposidade, mais conhecida como “barriguinha de chope” é considerada causa de “enfartes”. Custa 28 reais cada pilulazinha... Somente com um ataque muito perverso de hipocondria me abalaria a comprar. Aliás, quase sarei dessa mania depois que fui a um conceituado clínico ortomolecular. O médico não trabalhava com convênios e tive que pagar mais de meio salário mínimo pela consulta. Desisti com o orçamento da farmácia de manipulação recomendada para aviar a receita: R$ 600,00, numa pancada, só para o primeiro mês. Contive o desejo de chegar aos 100 anos de idade vendendo saúde, mesmo com a promessa de melhorar a imunidade com as pílulas milagrosas.
O Larousse explica que a hipocondria acomete 5% da população mundial. Isso pega em pessoas de ambos os sexos, principalmente depois dos 30. Grandes figuras da história foram hipocondríacas. César mandava vir da África raspa de chifre de rinoceronte para tomar com uma infusão de manjerona. Os curandeiros de Alexandre receitavam leite-da-mulher amada. Uma boa idéia. Muito melhor que a 51. Mas havia também umas infusões horríveis, como aquelas feitas com asas de morcego e titica de abutres. Credo!
Durante a evolução da psiquiatria observou-se que os hipocondríacos aumentam e amplificam suas sensações somáticas, ou seja, dão importância demasiada a qualquer sinal físico ou dor. Dizem os especialistas que a evolução dessa doença é crônica e extremamente desgastante, com episódios que duram meses ou mesmo alguns anos, trazendo sempre sofrimento significativo e comprometimento da funcionalidade do indivíduo. Tenho um amigo que, ao menor espirro corre para a farmácia e vai para a cama sob cobertor, qualquer que seja a temperatura ambiente. Em uma segunda teoria, a hipocondria é vista como uma solicitação de admissão ao papel de doentes. Maneira de fugir dos problemas. O papel de doente oferece uma saída, pois o paciente enfermo pode evitar obrigações “desagradáveis”, adiar desafios e geralmente é dispensado de deveres esperados. Não sei se é bem o meu caso, embora me considere um pouco “escapista”. Só consigo produzir sobre pressão, mas nunca aleguei nenhum estado de morbidade. Sempre consulto os médicos. Automedicação é que acaba levando a doenças reais. Minha mulher é uma hipocondríaca às avessas: consulta três ou quatro médicos seguidamente e não toma nenhum dos remédios prescritos. Adverti-a para a possibilidade de ser presa acusada de “falsidade ideológica”, ou algum tipo de estelionato não tipificado ainda pelo Código Penal. Imagino se a locadora descobre que ela aluga DVD, devolve no dia seguinte e paga sem assistir o filme. E se os médicos souberem que a paciente troca suas receitas pelas pílulas do Frei Galvão?
Gostaria de saber se há algum remédio eficaz para a hipocondria. Se alguém souber me avise que eu corro comprar.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC