Geral

‘Queria fazer algo transcendental’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar de não ser vaidoso, Antônio Checchin Júnior não tem falsa modéstia. “Se sou bom naquilo que faço, por que deveria sair por aí afirmando o contrário?”, costuma dizer. Natural de Bauru, ele passou boa parte da juventude em Iacanga, e hoje trabalha como advogado em Cuiabá, no Mato Grosso.

Antes de se dedicar ao direito, ele já havia feito de tudo um pouco. “Nunca quis ser anônimo. Se não fizesse algo de transcendental nesta vida, correria o risco de não reencarnar”, diz. Checchin Júnior tentou, inclusive, ser jogador de futebol. “Cheguei a ser ‘aspirante’ no São Paulo, em 1970. Joguei ao lado de Gilberto Sorriso, Terto, Pedro Rocha e Gérson”, afirma. Antes disso, ele já havia atuado algum tempo no Linense. “O Leivinha havia saído de lá para jogar na Portuguesa. Como eu era meio parecido com ele, acabei herdando o apelido”, conta.

Mesmo não tendo se tornado um craque de renome (desistiu do futebol antes de se profissionalizar), Leivinha foi capaz de atrair verdadeiras multidões nos anos 70 e 80 - só que através da música. Seus festivais das Águas Claras, realizados em Iacanga, marcaram época e ficaram na memória de uma geração inteira. Acompanhe, a seguir, trechos da entrevista que ele concedeu por telefone ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - O Festival das Águas Claras foi uma festa hippie?

Leivinha - O festival foi um evento que reuniu gente de diversas partes do Brasil com diferentes gostos e estilos. As pessoas da época nos deram esse rótulo porque usávamos cabelo comprido e curtíamos uma música diferente. Eu, por exemplo, não me considerava hippie, pois era casado e tinha residência fixa e profissão. Acredito que das 100 mil pessoas que participaram do festival, em 1981, apenas 3 mil eram hippies de fato.

JC - Na sua opinião, qual o motivo para o festival ter atraído tanta gente?

Leivinha - Diversos fatores colaboraram: primeiro, a ótima qualidade dos cantores que se apresentaram no festival; a organização também foi muito bem feita; além disso, na época não havia oferta de grandes eventos ao ar livre no Interior. As pessoas ficaram interessadas em conferir como aquilo seria.

JC - Por que o festival não voltou a ser realizado?

Leivinha - Acho que cada coisa tem uma época própria para existir. Naquele tempo, o Festival das Águas Claras fazia sentido. A nossa sociedade era muito repressiva e as pessoas buscavam meios para poderem se reunir e se expressar. Hoje essa necessidade já não existe. Um evento como aquele não teria o mesmo brilho de antigamente.

JC - Você ainda acredita nas mesmas coisas de quando era jovem?

Leivinha - Minha cabeça ainda é igual, só que meu corpo mudou. Eu ainda sonho com a paz, por exemplo, apesar de saber que isso é uma coisa utópica em um mundo como o de hoje. Atualmente, procuro ser mais exigente com relação ao meu conforto pessoal, porque meu físico já não é o mesmo. Ainda assim, sinto que sou a mesma pessoa. Gosto de tomar meu vinho, de escutar minhas músicas e de viajar. Dez anos atrás, por exemplo, fui até a Patagônia com uma moto Nomade 1.500. Se precisasse dormir no chão, eu dormiria - mas reconheço que em um hotel cinco estrelas o sono seria melhor.

Comentários

Comentários