Exatos 15 dias em uma cidade de pouco menos de 15 mil habitantes, Monte Negro, em Rondônia. Mais da metade da população mora na área rural e trabalha em extração de madeira e no garimpo. Pela primeira vez, a prefeitura da cidade contratou dentista, mas eles ainda não começaram a trabalhar. A cidade também não tem fonoaudiólogos. A malária maltrata a população. Muitos ficam surdos porque os medicamentos para o tratamento da doença possuem quitina, que aos poucos, destroem as células do ouvido.
Esse é o cenário que 34 estudantes, professores, funcionários e alunos pós-graduandos da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da Universidade de São Paulo (USP) enfrentarão entre hoje e 22 de julho, na 14.ª expedição do projeto “USP em Rondônia”. Para participarem do projeto, os candidatos fizeram uma prova de seleção.
Eles saíram do aeroporto Moussa Tobias, em Bauru, ontem pela manhã. Embarcaram em um avião C-105 da Força Aérea Brasileira e seguiram até a cidade de Porto Velho, em Rondônia. Depois, percorreriam mais 280 quilômetros de ônibus até Monte Negro, onde a USP possui, há 18 anos, um centro avançado de pesquisas para estudo e acompanhamento de doenças tropicais, o Instituto de Ciências Biomédicas 5 (ICB5). A equipe itinerante de profissionais vai prestar atendimento clínico odontológico e fonoaudiológico à população durante 15 dias.
Neste ano, além da comitiva da FOB, dois alunos do curso de graduação de odontologia da USP de Ribeirão Preto, uma aluna do curso de fonoaudiologia também de Ribeirão e dois alunos de graduação da Universidade do Sagrado Coração (USC) participam da expedição.
A coordenadora do projeto, Maria Aparecida Miranda de Paula Machado, salienta que o intercâmbio de experiências entre os profissionais vai ajudar no projeto. Depois desta expedição, será feito um balanço de todas as edições anteriores. Elas geralmente acontecem duas vezes por ano, em janeiro e julho, coincidindo com as férias escolares.
“A cidade é nova (apenas 17 anos), mas a miscigenação de pessoas é muito grande porque elas vieram de locais diferentes do País. O estilo de vida é bastante diferente do que vivemos e é uma experiência importante para os profissionais’, diz Machado.
Depois de anos de trabalho, com muito esforço, os expedicionários conseguiram pressionar a prefeitura de Monte Negro para contratar dentistas. “Pretendemos fazer o mesmo para a cidade ter fonoaudiólogos. Eles são bastante carentes e precisam de atendimento”, salienta a também coordenadora Magali de Lourdes Caldana, 37 anos.
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Experiência de vida
De chapéu de palha na cabeça, mochila nas costas e muita energia para o trabalho, os expedicionários despediram-se de parentes e amigos para passar 15 dias longe de casa. Os amigos João Fernando Arnoni Lanzoni e Lourenço de Moraes Rêgo Roselino, ambos estudantes de odontologia da USP de Ribeirão Preto, participam pela primeira vez este ano da expedição.
“Já tive uma experiência em Xingu. Mas as condições eram diferentes porque a população morava em aldeias”, conta João. Lourenço pretende aplicar o que já aprendeu na faculdade até agora e aprender muito. “Uma experiência como essa faz diferença para o profissional. Não descarto a possibilidade de, depois de formado, trabalhar em um local distante como esse que vamos conhecer”, falou.
A pós-graduanda em odontologia da USP de Bauru Cristiane Paz de Carvalho, 30 anos, viajou com o marido para a expedição. Além da experiência profissional, ela pretende conhecer a cultura do local. “A área de saúde coletiva é muito ampla e pretendo trabalhar em atendimento clínico e também nas escolas, na área educativa”, diz.