O debate sobre a transposição do Rio São Francisco soa árido. Mas para os moradores da região, remete a algo muito concreto - ao mesmo tempo em que significa um futuro incerto. O passado está na fala e no olhar de cada um deles. A reportagem reuniu quatro depoimentos que contam essa história. Com amargura, às vezes esperança. Um bancário que virou ambientalista, um índio kariri, um líder pescador e uma parteira quilombola. Confira, a seguir, quatro pequenas histórias de uma das artérias do Brasil.
O olhar dele é de esperança. Quando era criança, em Igreja Nova (AL), o rio desafiava os 40 quilômetros de distância e chegava até a porta de sua casa, na cheia. “Nadava e pescava no meu quintal”, conta Antônio Jackson Borges Lima, pequeno produtor rural e ambientalista. “Aprendi a nadar num pedaço de mulunga, uma madeira leve, tipo isopor”. A água chegava a três metros de profundidade. Algumas crianças morriam, e ele no início tinha de ficar preso em casa, entre outubro e março, para não morrer afogado.
As preocupações mudaram. Antes de falarem em transposição, Lima já se preocupava com o assoreamento. Hoje ele mora em Traipu, na margem alagoana do rio, onde coordena o primeiro e único museu sobre o Velho Chico. Ali ele coleciona objetos que contam a história dos moradores da região - como um moedor de café da Serra da Canastra, um liquidificador à corda, uma máquina de lavar de madeira. E registra a história da navegação no rio, das canoas aos vapores.
No Museu Ambiental Casa do Velho Chico, as crianças aprendem a respeitar o mais velho. Informam-se sobre queimadas, esgotos, garimpagem, agrotóxicos, irrigação. No sítio de 20 tarefas (ou 6 hectares), Lima planta árvores - somente pau-brasil, são dez. É um esforço de preservação da história, mas também de renovação. “Temos 504 municípios na região, todos jogando esgoto no rio”, diz o ambientalista.
Amor
O amor pelo rio nasceu da água no quintal e foi consolidado durante toda sua vida profissional. “Tive 32 férias, todas navegando no Baixo São Francisco”, conta Lima, um fiel apaixonado. Ele era funcionário do Banco do Nordeste e trabalhou em várias agências na beira do rio: em Pão de Açúcar e Penedo (AL), Gararu, Neópolis e Ilha das Flores (SE).
“Casei com moça de Traipu, tinha esse sitiozinho na beira do rio, aí construí o museu.” Museu e biblioteca. “Idéia é construir um auditório, para 50 pessoas, um barco-escola e um caminhão-baú, um caminhão itinerante”.
Durante as férias o ambientalista viu duas coisas: pobreza e ausência de projetos. Cita o caso de um assentamento na beira do rio, em Traipu, com 120 famílias. “Eles têm todas as condições: água, energia, gente, terra”, enumera. “Mas falta projeto, apoio técnico e financeiro. Alagoas praticamente não tem projeto na minha margem do rio”.
Ele lembra que, antes da barragem de Sobradinho, o São Francisco produzia muito arroz e peixe. Agora, a expectativa é a de uma grande cheia em 2009. A maior que ele viu foi em 1979, e a cada 20 anos tem uma. “Se o efeito estufa não interferir”, diz.
A fala de Lima alterna melancolia à necessidade de resistência. “As espécies de peixe desapareceram. Tem jovem de 19 anos que não conhece o surubim. A tubarana (dourado) está em processo de extinção”, observa. “Lá no museu tem três meses que um pescador conseguiu uma tubarana de 16 quilos. Está lá, embalsamada, para as pessoas conhecerem”.