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Sabendo do risco, meninos usam cerol

Da Redação
| Tempo de leitura: 3 min

“Tomô relo, já era!” Essa era a frase mais ouvida na rua de terra Edson Pereira Leite, no Parque Jaraguá, onde ontem 11 meninos se divertiam pelo simples fato de derrubar a pipa um do outro, na combinação perfeita de céu limpo, vento e férias escolares. Quem levar “relo” sai da brincadeira ou volta com uma novinha. Para engrossar a linha e evitar que ela seja cortada pelo colega e, ao mesmo tempo, cortar a linha alheia, muito cerol, a mistura feita com cola e vidro moído que pode machucar e até matar pessoas.

Apesar de saber do risco do cerol, eles seguem com a brincadeira perigosa. “Se cortar a minha linha, vai ver só”, protesta um dos meninos contra seus parceiros de pipa. “Ele é o que mais gosta da brincadeira por aqui”, revela outro rapaz de 18 anos. Pensativo, lembra-se de um acidente que aconteceu há semanas com um motoqueiro. “Ele cortou o braço enquanto passava na rodovia (Bauru-Marília)”, contou enquanto coçava os cotovelos.

Ele parou de estudar quando completou o primeiro grau. Agora ajuda o pai como servente de pedreiro e, nas horas vagas, passa a maior parte do tempo num terreno do bairro em que mora empinando pipa. “Dá medo que aconteça com a gente. Olha aquele fio de telefone – mostra o garoto apontando para a fiação da rua.“Só tem um pó. Quando enrosca (linha com cerol), até sai fogo”, completa, demonstrando o perigo.

Com a pele dos narizes vermelha, queimada de sol, os garotos continuam na arriscada diversão. “Tem vezes que a gente nem almoça”, conta um deles enquanto outro, de 9 anos, vestindo uma camisa de um time de futebol pelo qual não torce, sobe no topo de uma mangueira em busca de seu brinquedo. Quando chega ao seu objetivo, ouve a sentença de seus colegas: “Aê, a pipa dele já era!”.

Com os pés desprotegidos aos objetos encontrados no terreno de grama rala, como arame farpado, pneu de bicicleta e lixo, crianças e adolescentes correm olhando para as alturas no zigue-zague dançante dos fios. O cerol, mistura de cola branca com vidro, que também pode levar madeira, farinha de trigo e de mandioca, é colocada em sacos de picolé e vendida entre os próprios garotos por apenas R$ 1,00. O adolescente que for flagrado portando cerol ou que com ele provocou algum acidente fica sujeito a prestar serviço à sociedade e até ser internado na Fundação Casa, dependendo da gravidade.

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Proteção

Quem já foi vítima do cerol, geralmente não quer mais correr o risco. É o caso do vendedor Rogério Barbosa, 40 anos, que foi atingido por uma linha de pipa com a mistura quando dirigia sua moto no Jardim Olímpico, no ultimo dia 26, e sofreu um corte profundo no pescoço. “Naquela região, tem que passar de moto desviando das linhas”, frisa.

Assim que aconteceu o acidente, ele colocou uma antena anticerol em sua moto. “Susto é só uma vez na vida”, desabafa, agora sentindo-se mais seguro pela antena fixada no retrovisor. Ela funciona como uma espécie de anzol: na ponta, um gancho possui uma lâmina que corta o que prender.

O modelo fixo custa em média R$ 5,00 e o retrátil R$ 13,00, com vida útil de 8 meses. As vendas do protetor para motos aumentaram 50% nessa época de férias, segundo uma loja do ramo.

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