Ao morrer, Tonny acordou imediatamente em uma ilha tropical. As árvores, os pássaros, as flores, as praias, enfim, tudo ao seu redor dava a nítida impressão de Tonny estar em um verdadeiro paraíso. O mundo parecia simplesmente lindo e perfeito. Poucos minutos depois, apareceu à sua frente um anjo maravilhoso e repleto de luz. Com um sorriso no rosto o anjo curvou-se e disse: “Eu estou aqui para realizar todos os teus pedidos!”
Tonny que já estava com um pouco de fome, pediu então um bom almoço. Em alguns segundos apareceu à sua frente uma enorme mesa repleta de deliciosas especiarias e frutos do mar. Tonny não se conteve e foi logo pedindo uma caipirinha. Em um piscar de olhos o seu desejo tornava-se realidade. Tonny, então, entusiasmado com sua nova vida, começou a expressar a seu anjo todos os seus desejos e sonhos. Um campo de golfe, uma quadra de tênis, uma casa com piscina e sauna, lindas garotas, enfim, tudo que o que desejava aparecia imediatamente à sua frente. Porém, com o passar de alguns meses, Tonny foi ficando cansado e até mesmo seus pedidos foram ficando mais escassos.
Um certo dia, Tonny levantou-se quase desesperado e chamando seu anjo disse: “Assim não dá, isso tudo é muito chato! Eu já não agüento mais esta monotonia. Por favor, querido anjo, me dê algo para fazer! Eu quero realizar alguma coisa!” Sorrindo, o anjo, então, respondeu: “Sinto muito, esta é a única coisa que eu não posso oferecer”. “Então me mande pro inferno!”, gritou Tonny irritado. O anjo com muita calma e um sorriso no rosto respondeu: “Mas, afinal de contas, onde é que o senhor pensa que está?”
Sem dúvida alguma, o fenômeno que chamamos de morte é para todos nós uma das coisas mais desagradáveis da vida. Apesar da morte estar muito presente em nosso cotidiano, procuramos sempre não tematizá-la ou até mesmo reprimi-la de forma inconsciente. O fato é que o fenômeno da morte faz parte da vida e refletir sobre ela sempre se faz necessário. Se paramos para pensar um pouco, constatamos que existem, na verdade, dois tipos de morte.
O primeiro é a morte física. Esta é simplesmente inevitável. Por mais contraditório que seja, a morte física é a única coisa certa em nossa vida. Nós podemos fazer mil planos para o futuro. Porém, não temos garantia nenhuma de sua realização. A única coisa que podemos saber, com certeza, sobre o nosso futuro é o fato de que iremos vivenciar algum dia aquilo que chamamos de morte. Pode ser ainda hoje mesmo, daqui dois dias ou em cinqüenta anos, o fato é que um dia iremos morrer fisicamente. Se esta morte é certa o que ela na verdade significa continua para todos nós a ser algo de obscuro.
As religiões oferecem suas respostas. Estas, porém, deixam a razão insatisfeita exigindo sempre o auxílio da fé. No fundo, São Paulo está plenamente correto ao afirmar que “agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face” (Cor. 13, 12), ou seja, uma resposta concreta e clara nós só teremos quando fizermos a experiência de deixarmos definitivamente este estágio da vida. Enquanto permanecemos neste mundo, a razão se perde em devaneios e a fé nos ajuda a caminhar.
Além desta morte física, existe, porém, uma outra forma de morrer: a morte da alma. Ao contrário da primeira, a segunda se torna muito mais perigosa, pois retira, em vida, o que há de mais precioso no ser humano. Para entendermos esta segunda espécie de morte é necessário compreendermos o que significa aquilo que chamamos de alma. Para isso, é preciso nos libertar da concepção grega marcada pelo dualismo entre corpo e alma.
Nós, seres humanos, não nos constituímos em partes dilaceradas, mas formamos uma unidade. Nesta, corpo, espírito, alma e razão não estão divididos, mas são manifestações de um único ser humano. Nós não somos seres estáticos ou mortos, mas seres vivos, dinâmicos e animados. A este impulso de vida que anima todo o meu ser, ou seja, à expressão do meu corpo, de minha mente e do meu espírito damos o nome de “alma”. Alma vem da palavra latina “anima”, a mesma que deu origem ao substantivo “ânimo”. Justamente, aquele que possui ânimo, aquele que está animado deixa transparecer a força vital de seu ser, ou seja, sua alma.
A alma começa a agir como corpo já na fecundação do óvulo, quando as células se dividem e o corpo entra em expansão, em desenvolvimento. Este desenvolvimento em busca de vida cada vez mais humana, toda a minha busca de ser feliz, desde o desenvolvimento biológico até o espiritual constitui-se na alma humana. Portanto, alma não é algo que está preso no corpo, mas a própria expressão deste. Existem, porém, relações humanas, situações da vida ou instituições que provocam o enfraquecimento deste nosso impulso vital. A inveja, a repressão, a dominação, a submissão, a dependência, a ditadura, a falta de diálogo ou a indiferença são características de relações em família, entre amigos ou em sociedade que levam à destruição de nossa vontade de ser feliz.
Diante delas é que devemos verdadeiramente nos prevenir. “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma!” (Mt. 10, 28). O verdadeiro inferno é a situação na qual somos incapazes de realizar algo, nos tornamos inativos e perdemos o ânimo de viver. Com a morte da alma perde-se o sentido da vida, a razão da própria existência. Se a morte física está nas mãos de Deus, o tornar-se um “morto-vivo” depende de cada um de nós. Como afirma Nietzsche, o importante, para nós, neste momento, não é a vida eterna, mas a eterna vivacidade.