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Dia do Homem é celebrado sem alarde

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 5 min

Com certeza o leitor sabe quando é comemorado o Dia Internacional da Mulher, anualmente, em 8 de março. Deve saber também que a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou que a data fosse comemorado nesse dia em homenagem às operárias mortas em um incêndio criminoso, na fábrica Cotton, em Nova York, nos Estados Unidos.

Além do Dia Internacional da Mulher, há o Dia da Sogra, Dia da Avó, Dia do Amigo e muitos outros, sem contar os tradicionais Dia das Mães, Dia dos Pais e Dia das Crianças. O que pouca gente sabe é que existe um Dia Internacional do Homem, e que ele é comemorado hoje, 15 de julho.

Ao contrário do Dia da Mulher, a data de hoje não tem nenhum fato histórico por trás, e em muitos países nem é comemorado em 15 de julho. Mas, divergências à parte, o fato é que a data existe. No entanto, as discussões sobre qual a condição do homem atualmente não tomam conta dos noticiários, e não é feito alarde sobre o dia.

De fato, muito se discute sobre os direitos da mulher, da criança e do adolescente, dos idosos, e o homem fica em segundo plano, como se não existisse ou como se fosse um ser tão perfeito que não tem de enfrentar problemas.

Para o sociólogo Carlos Alberto Albertuni, a pressão social sobre o homem é muito maior, sobretudo pelo pensamento machista que impera na sociedade, inclusive nas mulheres. Ele destaca que a conquista de direitos pelas mulheres foi uma coisa benéfica, porém, quando ela ocupou esse espaço, o homem perdeu e ainda não aprendeu a conviver com essa realidade.

Por conta desse pensamento machista da sociedade, o sexo masculino não conseguiu se adaptar a funções antes ocupadas por mulheres, e, quando tenta, é discriminado. A realidade econômica vem obrigando o antigo ‘provedor’ a se render às tarefas que antes abominava, como cuidar dos filhos e da casa, enquanto a mulher trabalha fora.

Albertuni ressalta que essa troca de papéis é dificultada justamente pela educação recebida, que transforma o homem no ‘chefe’, responsável pelas contas e por colocar comida na mesa, enquanto a mulher fica em casa, exercendo suas funções domésticas.

Quando há necessidade de inversão da chamada ‘ordem natural’, a situação não é bem aceita, nem por um, nem pelo outro. “O machismo está na cabeça do homem e da mulher. O processo de educação dos filhos mostra bem isso, porque quem cria os filhos, em sua maioria, é a mulher, e ela projeta isso na cabeça dos meninos e meninas”, comenta.

Diante das mudanças que ocorreram na sociedade, o homem se viu obrigado a fazer concessões a esta nova realidade de mercado e se sente discriminado. O fato de ter uma cobrança constante em ter sucesso profissional para dar uma vida digna à mulher e aos filhos traz conseqüências mais graves ao próprio homem. “O machismo prejudica muito mais o homem, porque ele se vê obrigado a agüentar a pressão e responder as cobranças”, ressalta.

Para o sociólogo, é preciso saber dividir as responsabilidades entre ambos os sexos. Não é só o homem que precisa prover, nem só a mulher que tem de exercer funções domésticas.

Ônus

O fato de não ser costume comemorar o Dia Internacional do Homem pode ser explicado através do contexto histórico das sociedades ditas civilizadas. De acordo com o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, do departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), até mesmo nos chamados países de primeiro mundo as sociedades foram construídas através do machismo.

Essa realidade só começou a mudar na época da 2a Guerra Mundial, quando as mulheres se viram obrigadas a deixar os lares para trabalharem nas fábricas, enquanto os homens lutavam na guerra. As mudanças não foram sentidas em sua plenitude no Brasil porque o País não teve uma participação mais efetiva no conflito, ao contrário dos países europeus e dos Estados Unidos.

Após a guerra, a mulher foi conquistando benefícios e alcançando posições que, anteriormente, eram exclusivas do sexo masculino. No entanto, aponta Bertolli, a recíproca não foi verdadeira, e o homem não se adaptou a essa realidade. “O homem foi surpreendido e está pagando o ônus de toda a história, onde ele sempre foi privilegiado”, comenta.

Diante disso, se criou um desequilíbrio entre os sexos. No caso de separação dos casais, quando há filhos, freqüentemente eles ficam com as mães, mesmo que essas não tenha condições de criá-los, o que obriga o pai a pagar pensão para que a mulher possa continuar com a guarda das crianças.

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Desequilíbrio

O desequilíbrio entre os sexos, segundo Bertolli, acaba gerando certas injustiças de ordem social em relação ao homem. Segundo o antropólogo, é interessante observar que as gerações mais jovens são mais machistas do que os pais. Em muitos casos o homem toma conta dos filhos, troca fraldas, dá banho e causa estranheza, principalmente nos mais novos, que já estão condicionados ao machismo.

No mercado de trabalho, é possível perceber que o homem está concorrendo com a mulher em áreas que eram exclusivas dela. “Eu dou aula para relações públicas, e há 20 anos atrás a RP era uma área onde não havia homens”, conta.

Para Bertolli, há uma tentativa de reposicionarem os grupos sociais, já que a pós-modernidade fez com que fossem revistas as antigas identidades em busca de novos posicionamentos, mas ainda assim o preconceito é forte no caso de mulheres que trabalham fora, com um bom salário, casadas com homens que, por não ganharem tão bem, inverteram os papéis e foram tomar conta da casa. “Ninguém pode bater no peito e dizer que não é machista. Pelo menos nós temos ranços”, afirma.

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