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Sem-teto prefere calçada a albergue

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 3 min

Há quase duas semanas um homem transformou um pedaço da calçada da quadra 22 da rua Araújo Leite, nos Altos da Cidade, em sua moradia. Lá, tem passado os dias quase imóvel, deitado no chão, levantando-se apenas para comer quando recebe alguma doação e para manter o hábito que, muito provavelmente, o transformou em um sem-teto: comprar aguardente.

Segundo a comerciante Laquete Medeiros, cujo estúdio fica do outro lado da rua, o homem se recusa a sair do local. Ele também aparenta necessitar de cuidados médicos, mas não quer receber qualquer tipo de ajuda que não seja comida ou dinheiro para alimentar o vício.

Na última sexta-feira, a reportagem tentou conversar com ele, que se identificou como Varlei Sérgio, mas se recusou a dizer a idade. “Sou velho”, respondeu, já irritado. Quando perguntado sobre a possibilidade de ir para o Albergue Noturno, questionou: “Ir para quê, para ficarem me enchendo?”. O diálogo foi encerrado em seguida. “Quero ficar quieto, não estou mexendo com a vida de ninguém”, disse, virando-se de lado para não abrir mais a boca. Ontem à noite, apesar da chuva e do frio, ele continuava lá apenas com pedaços de pano de um plástico para se proteger. Desta vez não quis nem iniciar um diálogo. A garrafa de cachaça estava lá, ao seu lado.

Sérgio faz parte do grupo de sem-teto que prefere passar frio e fome na rua a ir para abrigo e receber comida em um lugar no qual tem que seguir algumas regras. Segundo Mercedes Francisco de Oliveira, voluntária do Albergue Noturno há sete anos, são comuns os casos de homens que passam pela instituição apenas para comer e vão embora logo após a refeição, evitando o banho e a troca de roupa. De acordo com o também voluntário André Maziero, que há pouco mais de um ano atua no albergue, quando dormem por lá após o banho e a troca de roupas, no dia seguinte os sem-teto têm um encontro com uma assistente social. “Alguns preferem não ficar para não passarem pela triagem. Jantam e vão embora”, diz.

Os voluntários dizem que não é possível evitar que isso aconteça. “A pessoa tem o seu livre-arbítrio. A gente conversa, tenta convencê-los, mas se eles não querem ficar, não podemos fazer nada”, afirma Maziero.

Na semana passada policiais militares estiveram no local e tentarem convencer, sem sucesso, o sem-teto da Araújo Leite a ir para o Albergue Noturno. “A pessoa precisar querer ser ajudada”, diz Laquete Medeiros. Ela conta que já levou comida para o homem algumas vezes e tentou convencê-lo a deixar a calçada. Não conseguiu. “Ele disse que está assim porque não conforma com a morte da mãe, há 14 anos. Disse que tem irmãos mas que isso não adianta”, conta a comerciante.

Quem passa pelo local diariamente já se acostumou com o homem da calçada e apenas desvia para não tropeçar. Segundo Medeiros, outras pessoas da vizinhança levam comida e bebida para Varlei Sérgio.

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