Buenos Aires - Investigada por causa de uma bolsa com dinheiro achada no seu banheiro particular no Ministério da Economia argentino, Felisa Miceli renunciou ontem ao cargo, se tornando assim a primeira ministra de Néstor Kirchner a deixar o governo por suspeitas de irregularidade.
A renúncia chega em um momento delicado para o governo Kirchner, às voltas com uma crise energética e justamente na semana em que será lançada oficialmente, com um ato em La Plata, a candidatura à Presidência da primeira-dama, Cristina Fernández de Kirchner. O substituto de Miceli será Miguel Peirano, até então secretário da Indústria.
A decisão de Miceli foi anunciada depois que, ontem de manhã, o procurador Guillermo Marijuan pediu à Justiça autorização para tomar um depoimento da ministra, na condição de suspeita de “encobrir uma operação financeira de legitimidade duvidosa”.
Se aceito o pedido, Miceli pode deixar o depoimento já como processada por descumprimento de suas obrigações como funcionária pública e pela subtração da ata na qual foi registrado o descobrimento do dinheiro.
No dia 5 de junho, durante uma perícia de rotina, bombeiros encontraram no banheiro de Miceli no ministério uma bolsa contendo 100 mil pesos e US$ 31 mil (cerca de R$ 120 mil ao todo). A notícia veio a público no fim de junho, em reportagem do semanário “Perfil”. Após 12 dias de silêncio, Miceli concedeu uma entrevista na qual afirmou que o dinheiro fora emprestado pelo seu irmão Horacio, empresário do setor farmacêutico, e seria usado para comprar um imóvel. O negócio teria sido cancelado depois.
Após as explicações, o chefe-de-gabinete de Kirchner, Alberto Fernández, disse que o governo estava satisfeito com os esclarecimentos e que Miceli estava “totalmente confirmada” no cargo. O cenário mudou com a solicitação de Marijuan, que se antecipou à declaração espontânea que a ministra pretendia fazer nos próximos dias.
O principal argumento do procurador para duvidar das explicações de Miceli é o fato de os 100 mil pesos estarem envolvidos por uma fita do Banco Central, o que permitiu rastreá-los e mostrar que eles foram destinados à financeira Cuenca, da qual nem Miceli nem seu irmão são clientes. A Cuenca é investigada pela Justiça por retiradas de dinheiro não-documentadas.