Brasília - Declarando-se “triste” com as vaias recebidas na cerimônia de abertura dos jogos Pan-americanos, na sexta-feira, o presidente Lula insinuou ontem que o movimento pode ter sido “organizado” - mesmo argumento usado por petistas e outros aliados. Foi a primeira menção pública de Lula às vaias, que o deixaram visivelmente contrariado na sexta-feira. “A única coisa com que eu, particularmente, fico triste é que fui preparado para uma festa. É como se eu fosse convidado para o aniversário de um amigo meu, chegasse lá e encontrasse um grupo de pessoas que não queria a minha presença lá. Eu tenho certeza de que não é esse o pensamento do Rio de Janeiro”, desabafou, em seu programa semanal de rádio, o “Café com o Presidente”.
Lula disse que, quando terminou o evento, “várias pessoas vieram dizer que tinha sido organizado, que gente tinha recebido convite”. “A mim não interessa o que aconteceu, já aconteceu”, afirmou. Ele ainda acrescentou que as vaias não mudam “um milímetro” do comportamento dele em relação ao Estado. O governo federal bancou R$ 1,8 billhão dos R$ 3,7 bilhões gastos na preparação dos Jogos, sendo que R$ 49,8 milhões foram direcionados para festas relativas ao evento esportivo.
O ministro do Esporte, Orlando Silva Júnior, disse ontem que acha pouco provável o presidente Lula voltar ao Rio para assistir o Pan. “Acho pouco provável. Agenda de presidente não é simples. Ele fez um esforço enorme, ficou feliz com a festa, com a Vila, mas não é simples”, disse o ministro.
Lula está convidado para assistir a cerimônia de encerramento dos Jogos, que acontecerá no dia 29, no Maracanã. “O presidente veio com o espírito aberto para uma festa, desarmado”, disse o ministro, que também classificou as vaias de “armação”, sem dar detalhes. “Visitei vários postos de competição no sábado e inúmeras pessoas me pararam na rua para dizer que estavam com vergonha. Liguei até para o presidente para contar isto. Acredito que quem montou aquela armação deixou o tiro sair pela culatra. O que gerou foi uma grande solidariedade ao presidente”, disse o ministro.
As vaias, num momento em que pesquisas de opinião dizem que a alta popularidade do presidente está mantida, suscitaram uma troca de farpas entre governistas e oposicionistas.
Ontem, o site do PT trazia reportagem intitulada “Vídeo mostra ensaio de vaia a Lula às vésperas do PAN”. Nela, o deputado Dr. Rosinha (PT-RJ) disse ver indícios de que a Prefeitura do Rio, comandada por César Maia (DEM), buscou “criar um factóide” contra Lula e organizou claque para aplaudi-lo e para vaiar o presidente. A reportagem do site do PT ressalta que a venda de ingressos do PAN é responsabilidade da Prefeitura do Rio, assim como a seleção dos voluntários que trabalham nos jogos.
César Maia disse à reportagem que a prefeitura sorteou somente 300 ingressos - com direito a acompanhante - entre seus funcionários. Segundo ele, o governo federal, incluindo nessa conta Petrobras e Caixa Econômica Federal, teve direito a 7.613 ingressos e o Estado a outros 800 convites. No boletim diário que distribui por e-mail, Maia disse que é a assessoria de Lula que usa “claques de aluguel” e procura levá-lo apenas onde os aplausos serão inevitáveis, o que daria uma “falsa impressão de popularidade”.
Ele criticou a estratégia do presidente de “conquistar o Rio” desde que Sérgio Cabral (PMDB) foi eleito governador. Segundo o prefeito, Lula foi vaiado porque “tentou se apropriar do Pan do Rio transformando em Pan do Brasil”.