A amizade não depende de sexo, religião ou idade para ser verdadeira, mas existe um dia para celebrar essa relação: o Dia do Amigo. A data foi criada pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro, que se inspirou na chegada do homem à Lua, no dia 20 de julho de 1969. Ele considerou que essa conquista era o indício de um mundo unido e sem fronteiras, e a comemoração virou decreto em seu país. Logo, a idéia se espalhou por outras partes do globo, inclusive no Brasil, onde hoje muitos amigos irão ganhar e receber grandes abraços e saudosos telefonemas. Em Bauru, não é diferente. Existe até Clube das Amigas.
Em 2002, Regina Valentim e sua amiga Vera Rigoni fundaram o clube, que atualmente tem seis integrantes, todas mulheres que trabalhavam num mesmo lugar. Os laços de amizade são tão fortes que as confidências são muito bem guardadas por todas, assim como a idade de cada uma. “Eu não falo minha idade nem morta”, declara Regina, que diz ter ‘parado nos 30’. “Eu e todas nós, meu bem!”, defende-se bem-humorada, incluindo as suas amigas.
E amizade não tem idade mesmo. Luana e Lívia, ambas de 3 anos, conversam pelo telefone e se vêem todos os dias, mesmo durante as férias escolares. Questionada sobre o motivo de gostar tanto de brincar com a amiguinha, Luana respondeu: “Porque ela é linda”. Além de ser uma bela relação, o psicoterapeuta Ricardo Mokdici defende que a amizade também é muito importante para o crescimento do ser humano. Nela, acontecem diálogos e discussões para que as pessoas conheçam melhor o outro e a si mesmas. “Quanto mais amigos tiver, melhor vai ser a comunicação com todos e a pessoa irá adquirir maior sociabilidade. O inverso acontece com os tímidos, que se sentem muito sós e desamparados”.
Mas às vezes não há como manter a convivência diária. É o caso de Carolina Bruschi, 14 anos, que deve mudar-se de Bauru em dezembro, o que a obrigará distanciar-se das amigas. “Eu fiquei chateada, pedi para o meu pai para ficar até o final do ano aqui e terminar a oitava série”.
Segundo Mokdici, Carolina não tem razões para se preocupar. “Amigo não é aquele que vê necessariamente todos os dias, mas aquele que quando precisar, vai estar lá de prontidão. O verdadeiro amigo sabe ouvir, entender e agir no momento certo”, ensina.
Porém, Carolina diz que sentirá muita falta das suas amigas, em especial de Jéssica Bonono, 14 anos, com a qual se diverte muito. “Adorei quando a gente foi no show do NOX (banda de rock), foi demais”, lembra-se. Não são apenas os adolescentes que fazem da amizade uma deliciosa diversão. A amizade de Loulou Massad, 55 anos, e Meiri Bianconcini, 57 anos, já começou com festa, há 27 anos, num churrasco na casa de Meiri.
Diversão
De lá para cá, foram muitas viagens e diversão. “Às vezes a gente discute, mas nada demais. Logo nos perdoamos e acaba tudo bem. Isso acontece porque somos amigas”. Nas relações de amizade, até as brigas são de alguma forma bem-vindas, explica o psicoterapeuta. “Quanto mais viver as decepções e até os nãos com os amigos, mais vai estar preparado para passar por isso em outras relações afetivas. Tudo é reflexo”, conclui.
Mokdici acredita que a amizade nasce da necessidade de compartilhar e, com isso, aprender a viver na diversidade. “É ver que o outro é diferente dele e nem por isso pode deixar de ser amigo”, observa. Mas em alguns casos, a afinidade é tão grande que parecem até pessoas da mesma família. Isso acontece com Meiri e Loulou: é comum pensarem que as duas são irmãs. “Não sei por que, se eu sou morena e ela tem olhos claros”, observa Meiri. “Deve ser porque temos tanta empatia que ficamos até parecidas”, responde ela após lembrar que o que as une é o amor de amiga, sentimento que transcende as aparências.
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Colegas x amigos
O psicoterapeuta Ricardo Mokdici está acostumado atender jovens decepcionados com os amigos, em seu consultório. “Quando reclamam para mim das decepções ‘Fulano era amigo, era brother, mas eu me decepcionei’. Eu pergunto: ‘Em que situações mais delicadas ele demonstrou que era o seu amigo?’ E a pessoa não consegue me dar um exemplo”.
Ao observar os seus pacientes, Mokdici acredita que não se fazem mais amizades como antigamente. “As pessoas da faixa etária a partir de 30 anos têm outro referencial para qualidade da amizade. A geração de hoje considera que qualquer um que conheceu numa mesa de bar, naquele instante, já é amigo.” A arma contra as decepções, segundo o psicoterapeuta, é saber a diferença que existe entre um colega e um amigo. “Colegas fazem parte da vida, mas não têm fidelidade. O amigo é qualidade e o colega é quantidade. Tempo, vivência e qualidade definem se realmente existe uma amizade. Colega não requer nada disso.”
Mokdici defende que os adolescentes estão hipnotizados pelo materialismo, onde roupas, carros são muito valorizados, mas não se valoriza caráter, companheirismo, fidelidade. “Com o passar do tempo, percebe-se que algumas coisas são rótulos e outras são verdadeiras, como a amizade”, conclui.