Quando eu era criança olhava do quintal de casa aviões que cruzavam os céus, bem alto, e ficava imaginando a fisionomia das pessoas a bordo e o que estariam pensando ou fazendo, naquele momento. Será que alguém estaria me vendo pela janelinha? Agora reflito sobre os passageiros na alegria da volta, viagem praticamente terminada e, dali a pouco, o abraço daqueles que esperam. De repente tudo termina numa bola de fogo. Perde sentido a engenhosa invenção transportadora do sonho de tantas crianças que brincam no quintal. Avião deveria ser a representação da alegria de quem volta ou dos que realizam o sonho da viagem para conhecer outras terras e aproveitar as delícias da vida. No Brasil, parece que o mito de Ícaro e Dédalo se transformou em símbolo da tragédia, do desconforto e do estresse vividos em aeroportos.
Ninguém jamais saberá o que aconteceu naqueles poucos segundos. Pilotos e passageiros morreram. Os primeiros, certamente, herdarão a culpa e jamais poderão se defender. Se o culpado não for o comandante da aeronave, São Pedro terá que assumir. No mínimo. “Top-top”, segundo o gesto apanhado por uma câmera indiscreta da TV Globo do assessor especial da Presidência Marco Aurélio Garcia, de “Assuntos Internacionais”. A mão direita espalmada batendo sobre a esquerda de punho cerrado, enquanto o assessor puxava os braços ao lado do corpo simulando o gesto de copular. Assim se resumiu a “indignação” dos altos funcionários pelos juízos apressados sobre as causas do desastre. Seria cômico se não fosse trágico. É mais uma para o folclore político que se une ao “relaxa e goza” da Martha Suplicy e da atribuição do apagão aéreo ao progresso econômico do país feito pelo ministro Guido Mantega.
Escrevo antes do anunciado pronunciamento à nação do presidente Lula. “Nunca na história deste país investiu-se tanto em aviação civil”. Os acidentes aviatórios também foram os maiores da história, não só do Brasil como de toda a América Latina. Há dez meses, desde a trombada em pleno ar do avião da Gol com o Legacy, assistimos à desorganização de todo o sistema de transporte via aérea. Lula somente agora ameaça demitir os presidentes da Infraero e da Anac, apadrinhados que nunca se revelaram com aptidão para o cargo. Somente souberam reformar aeroportos a partir da bombonière, como disse Ruy Castro. Gastou-se bilhões de reais em estações de passageiros quando o mais importante seriam as pistas longas, com os padrões mais modernos de engenharia, justamente para dar segurança aos dois momentos mais críticos de um vôo – pouso e decolagem.
À parte declarações e ações cada vez mais desencontradas e patéticas de ministros e assessores, a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) é o último filho bastardo da ditadura militar. Delfim Neto, que a criou, confessa um dos maiores erros da sua carreira. Arrepende-se amargamente do Frankenstein nascido na sua gestão como ministro da Fazenda. Ainda bem que a Siderbras, a Portobras e a Embrafilme, também frutos da falta de inspiração do ex-ministro, já não existem mais. Neste país nunca houve competência para gerir empresas públicas, em nenhuma instância – federal, estadual ou municipal. “Competência”, segundo o Aurélio “é a qualidade de quem é capaz de fazer determinada coisa com capacidade, habilidade, aptidão e idoneidade”. As sociedades de economia mista que não são deficitárias instrumentalizam alianças políticas espúrias ou de roubalheira. A Anac, como agência reguladora, tem na presidência um “peixinho” da Tam, a qual deve fiscalizar. Na Infraero, que presta serviços às empresas, o indicado é da Gol. Os fiscais recebem passagens de cortesia das empresas as quais devem fiscalizar. É o fim...
Se eu fosse Presidente privatizaria os grandes aeroportos e venderia o controle acionário da Infraero. Com o dinheiro investiria nos pequenos aeroportos, como o de Bauru. Em havendo equipamento adequado poderiam descentralizar o tráfego de cargas e as escalas técnicas erroneamente concentradas nas metrópoles.
Os povos civilizados sobreviveram a tragédias ainda maiores. Mas souberam tirar proveito das amargas lições. Primeiro, para não repeti-las e, em segundo lugar, para se aperfeiçoarem.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC