A mais popular e conservadora das aplicações financeiras no Brasil ganhou destaque nas últimas semanas por ter apresentado seu melhor resultado de captação de dinheiro desde 1995. Mesmo tendo se tornado um investimento pouco rentável, a poupança sempre fez parte da vida de milhões de pessoas. Com a ajuda dela, muitos compraram carro, casa, pagaram escolas, viagens e uma infinidade de outras despesas.
Depois que a inflação abaixou e os juros caíram, a poupança perdeu muito seu poder de atração. Muitos se desinteressaram, procuraram alternativas mais rentáveis ou simplesmente pararam de poupar por causa do baixo rendimento. No entanto, uma parcela da população manteve-se fiel ao compromisso de estar sempre guardando um pouco de dinheiro para despesas inesperadas ou mesmo para as já programadas, como uma viagem ou a compra de algum objeto cobiçado.
De acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), existem no Brasil algo em torno de 75 milhões de poupadores. Ou seja, cerca de 40% da população tem pelo menos uma conta da caderneta de poupança.
Ernesta Del Nery, 73 anos, faz parte dessa estatística. Poupadora desde a década de 1970, ela só conseguiu comprar o primeiro carro, um Fusca 72 usado, graças às economias feitas durante anos. Ela conta que juntava até as moedas que sobravam das despesas domésticas e de seus trabalhos esporádicos com o objetivo de comprar o carro. “Era usado, mas serviu por muitos anos”, diz ela.
Além de realizar esse sonho, Ernesta passeou bastante com o dinheiro que tinha guardado na poupança. “Sempre quando chegava o fim do ano, eu tinha dinheiro para viajar, comprar presentes”, comenta. Isso tudo, sem mexer no orçamento de casa.
O Fusca foi vendido no ano passado. O dinheiro da venda foi empregado na compra de outro veículo, mais novo. Hoje, Ernesta não dirige mais, mas os depósitos na poupança continuam sendo feitos. “Guardar dinheiro é sempre importante. Você nunca sabe quando vai precisar”, ensina.
Entretanto, a poupança não é mais o único destino das economias feitas por Ernesta. Atualmente, ela investe o dinheiro também em outras aplicações, mais rentáveis. Mas desfazer da poupança, jamais. “A poupança ainda é a maneira mais fácil de conseguir dinheiro na hora”, afirma. “É só ir ao banco e sacar. É muito mais fácil do que vender um terreno, uma casa ou um carro”, compara.
Para a analista financeira Andréia, 41 anos, que pediu para não ter seu nome verdadeiro divulgado, poupar é uma questão de disciplina. Na opinião dela, só assim é possível obter um resultado positivo. “Sem disciplina não tem como a pessoa se dar bem financeiramente”, declara.
Entenda-se por disciplina o firme propósito de guardar dinheiro todos os meses. De preferência, um valor fixo. “Se a pessoa for guardar só o que sobra os resultados serão tímidos, porque dificilmente vai sobrar alguma coisa do salário”, prevê ela. “O mercado oferece muitas opções e a gente sempre acaba gastando além da conta.”
Foi graças a essa disciplina que Andréia arranjou dinheiro para comprar uma casa e, mais recentemente, um carro. A conta ficou zerada, mas isso não a impede de já fazer planos para o fim do ano. “Em dezembro, pretendo viajar com o dinheiro da poupança.”
Formada em ciências contábeis e administração de empresas, ela diz ser a favor da compra à vista. “Ao invés de fazer financiamento, é melhor guardar dinheiro e pagar à vista.” Segundo Andréia, hoje a caderneta de poupança é mais rentável do que os fundos de investimento. Isso porque não há cobrança de taxa de administração, de CPMF (dependendo do banco) e nem de Imposto de Renda para pessoa física. Em outras aplicações, esses impostos são cobrados.
Talvez isso explique a captação recorde de recursos registrada pela poupança nos primeiros seis meses deste ano. De acordo com dados do Banco Central, divulgados recentemente, a diferença entre o total depositado entre janeiro e junho nas cadernetas de poupança e as retiradas foi de R$ 8,773 bilhões. Foi o melhor primeiro semestre de captações desde 1995.
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A história da poupança
Antigamente não existia um mecanismo que permitisse financiar a casa própria a longo prazo, em conseqüência disso, o sonho de possui-la era privilégio de poucas pessoas.
Para solucionar esse problema, em 1964 foram criados mecanismos específicos para a obtenção de recursos. Um deles o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS).
As empresas passariam a depositar recursos na conta do empregado, dando-lhe direito de resgate somente quando fosse desligado da empresa e futuramente para aquisição da casa própria.
E o outro mecanismo foi a caderneta de poupança, que visaria a captação de recursos das poupanças populares, a qual foi implantada em 1964/65 através de um conjunto de empresas que em suas atividades se dedicariam a esse segmento, constituindo-se assim, o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos (SBPE).
Na prática, esse sistema consiste em entidades financeiras públicas e privadas, chamadas também de agentes financeiros, que buscariam recursos da população para exatamente financiar o sonho da casa própria.