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O multimídia volta à telinha

Por Lucas Neves | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Nos instantes finais da conversa com a reportagem, ao ser indagado sobre sua idade, Miguel Falabella se sai com esta: “Estou em algum lugar entre os 20 e a eternidade”. O fim da frase, vindo de alguém que produz roteiros e dramaturgia em escala industrial, soa como aspiração - tornar-se imortal por sua obra - mais do que como capricho poético.

Aos 49, adepto da filosofia de trabalho do “tudo ao mesmo tempo agora” (para a qual contribui uma recorrente insônia), ele desenvolve projetos em cinema, televisão e teatro. O primeiro a estrear, provavelmente já no próximo domingo, é a sitcom “Toma Lá, Dá Cá”, escrita com Maria Carmem Barbosa. Na história, que retoma um especial exibido no fim de 2005, Falabella é Mario Jorge, corretor de imóveis casado em segundas núpcias com Celinha (Adriana Esteves), que é vizinho de porta da ex-mulher, Rita (Marisa Orth), em um “condomínio-Estado” (4 mil habitantes) do Rio.

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Loucuras

“O mote é a loucura do confinamento”, diz ele, que terá como colegas de “clausura” uma paquita da terceira idade (a sogra predadora de guris) e uma “pit girl” (a filha, que tem por projeto de vida engravidar do presidente do Senado). A comédia familiar seria um “Sai de Baixo” repaginado?

“Lá, a linguagem era histriônica, próxima da chanchada. Agora, muito mais do que a graça física, o humor vem do texto”, compara. Também para a Globo, Falabella escreve a sinopse da novela “Muralha da China”, que enfoca a inseminação artificial.

No teatro, depois dos perrengues com “Império” - musical de sua autoria cuja temporada carioca chegou a ser interrompida por atraso no repasse de verbas municipais -, ele ensaia (como ator e diretor) “Os Produtores”. Trata-se da adaptação do espetáculo da Broadway em que dois espertalhões tentam encher os bolsos com um musical de tintas nazistas que parece garantia de fracasso. A estréia acontece em setembro, em São Paulo.

“O Rio não tem dinheiro. As pessoas (patrocinadores) estão interessadas no mercado paulista”, diz, sem esconder a contrariedade com os percalços de “Império”. “A história sempre nos fará justiça. A peça vai ser remontada no centenário da minha morte”, emenda, já em tom jocoso. Ele volta a adotar um tom sério ao falar de seu pedido de demissão do cargo de gestor da rede de teatros do Rio, em março deste ano. Na época, sugeriu-se que ele teria deixado a função em resposta à não-liberação de recursos para “Império”.

“Saí por causa da falta de verbas para tudo. A máquina pública é coisa para (o escritor Franz) Kafka (1883-1924). Nunca fiz nada em proveito próprio. O dinheiro para ‘Império’ veio de concurso público, e não da rede (de teatros). O Rio me fez uma estrela, e vi no cargo uma maneira de pagar de volta à cidade. Mas é difícil, as pessoas estão preocupadas só com o próprio umbigo”, diz.

Mais satisfeito Falabella está com o cinema. No início de 2008, deve estrear “Cleópatra”, filme de Júlio Bressane em que encarna o imperador romano Júlio César. No encontro de seu estilo comunicativo, cheio de “cacos” (improvisos), com a narrativa hermética de Bressane, prevaleceu a segunda. “Sou macaca de gaiola quando tenho que ser. O roteiro era claro: mostrava um César atormentado pela epilepsia, pelo desejo de ser Deus”, lembra ele.

Como diretor de cinema, ele estréia em “Polaróides Urbanas”, adaptação de sua peça “Como Encher um Biquíni Selvagem”, ainda sem lançamento definido.

Com olhar de iniciante, ele vê duas razões para a (anêmica) bilheteria recente do cinema nacional. “Há um problema gravíssimo de roteiro, e os blockbusters dominam tudo (o circuito exibidor). As pessoas estão lobotomizadas”.

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