Política

‘Aeroportos sucateados têm interesse econômico’, diz ex-presidente da Infraero

Por Alceu Luís Castilho | Correspondente do JC em Brasília
| Tempo de leitura: 9 min

O deputado Carlos Wilson (PT-PE) presidiu a Empresa Brasileira de Infra-estrutura Aeroportuária (Infraero) durante três anos e três meses - a maior parte do primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na terça-feira, horas antes do acidente com o Airbus da TAM em São Paulo, ele concedeu uma entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ) para falar, principalmente, das tendências da infra-estrutura aeroportuária em São Paulo. Para ele, por exemplo, “Viracopos é o aeroporto do futuro”. Mas alguns temas ultrapassam e muito as fronteiras paulistas - como uma suposta demora do Tribunal de Contas da União (TCU) e outros órgãos de fiscalização na liberação de reformas necessárias aos aeroportos. Apesar de pertencer a um partido governista, ele também critica a ausência de investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) na Embraer.

Jornal da Cidade - O senhor diz que Viracopos será em algumas décadas o principal aeroporto do País. Por quê?

Carlos Wilson - O crescimento de cargas e de passageiros no Brasil é um dos maiores do mundo. Se fala muito na China, mas na área da aviação no Brasil é onde mais se cresce. A dificuldade é que mais de 80% do transporte se concentra em São Paulo, Rio, Minas e Brasília, principalmente São Paulo. São Paulo tem os dois maiores aeroportos do País: Viracopos e Guarulhos. Eles se alternam no que se refere a cargas, em um mês Viracopos tem movimento maior, no outro, Guarulhos. Mas isso representa mais de 70% da carga. No que se refere a passageiros, há um esgotamento em Guarulhos. Tanto que temos, lentamente, a construção do terceiro terminal. A capacidade para 18 milhões de passageiros está literalmente esgotada. Com a construção do TPS 3, a capacidade irá para 25, 30 milhões de passageiros. Mas isso é o limite. Portanto, quando falei que Viracopos é o aeroporto do futuro, é porque tem o melhor sítio aeroportuário: área plana e fincado numa região muito importante, muito rica de São Paulo, no que se refere à exportação, ao uso da aviação de passageiros comercial.

JC - E quais as dificuldades, então?

Wilson - Viracopos precisa ser olhada com muito carinho e muito cuidado. Tanto que quando estava na Infraero lutamos muito para iniciar a obra da segunda pista. E até hoje, um ano e cinco meses após eu ter deixado a empresa, não há nem notícia do início dessa obra. Pensou-se inclusive em mudar o local, porque onde estaria projetada a construção da segunda pista há uma ocupação de mais ou menos 4 mil famílias, e não é fácil assentá-las. Demora, tem de discutir com a população. Aí se colocou a segunda pista em outra posição. Essa segunda pista é o passo inicial para que Viracopos seja o aeroporto do futuro. Mesmo o terminal de passageiros, que foi ampliado em 2004/05, já está em processo de precisar de nova ampliação. Há um projeto na Infraero. Mas o importante é dar agilidade a esses processos. Tenho uma preocupação muito grande, porque os projetos de ampliação de aeroportos, principalmente os aeroportos centrais, os mais importantes do País, estão aí pendentes, junto a Tribunal de Contas, órgãos de controle. Existem muitas denúncias e muito pouca boa vontade de fazer as obras.

JC - Falta boa vontade por parte de quem?

Wilson - O TCU é vigilante no que se refere a pedir informações, mas tem de ser ágil no sentido de receber informações para que as obras não sejam praticamente paralisadas, como tem acontecido. O projeto do terminal 3 de Guarulhos tem mais de 10 anos. Aeroporto você não constrói do dia para a noite, demora 10 ou 15 anos. Se os órgãos de controle não tiverem agilidade, fico temeroso com o que possa acontecer em relação ao transporte de cargas e principalmente de passageiros no País. Cargas, estamos com 90% da ocupação dos terminais da Infraero. No caso dos passageiros, o Brasil teve um movimento de 105, 110 milhões de passageiros, e a capacidade da Infraero é em torno de 120 milhões. Levando em conta um crescimento anunciado na faixa de 15% a 20%, estaremos literalmente esgotados. O trauma que esse País enfrentou com a questão do apagão aéreo, dos controladores e discussão de equipamentos, pode ser bem maior.

JC - E esse apagão terá um estopim em São Paulo.

Wilson - Sim. Muito se fala no sucateamento dos portos. Espero que os aeroportos não venham a sofrer o sucateamento que os portos sofreram. É preciso que o governo tenha consciência. Porque por trás disso tudo tem um interesse econômico muito forte. Porque hoje existe uma campanha muito clara nos meios de comunicação. Eles estão sendo instrumentalizados para preparar a população para aceitar a privatização do transporte de cargas e passageiros. São Paulo representa a sustentação do País. Só Viracopos e Guarulhos representam metade dos aeroportos da Infraero. Então essa onda de privatização me preocupa muito. Ninguém é proibido de construir aeroporto no País. Qualquer empresa, governo estadual ou municipal pode construir. Agora, o que vejo é uma ambição de abocanhar os aeroportos centrais, de cargas e passageiros, principalmente os de São Paulo. É bom que a população fique atenta, o governo fique atento a essa manobra.

JC - O senhor disse isso ao ministro e ao presidente, com essa ênfase?

Wilson - Disse não só aos ministros, ao presidente da República, mas no meu atual fórum, que é a Câmara. Quando estive na CPI da Câmara disse que existiam duas propostas para o sistema aeroportuário: uma, do governo do presidente Fernando Henrique. O PSDB tem posição francamente favorável à privatização. O DEM também. O governo Lula procurou estimular, investir maciçamente na infra-estrutura aeroportuária. Eu tive essa missão durante três anos e três meses. Se não tivessem sido feitos os investimentos em Viracopos, Congonhas, o aeroporto de maior movimento do País, a situação estaria pior. A capacidade de Congonhas, com todas as reformas, é para 10 milhões de passageiros. E está operando com 20 milhões de passageiros este ano. Então não é possível. Temos de ter a coragem de fazer uma reforma da malha da aviação comercial no Brasil e da aviação de cargas.

JC - E para logo...

Wilson - Para logo, e o “para logo” para a gente era para ter sido feito ontem. Estamos atrasados no mínimo 10 anos. Se o Brasil tivesse preparado a infra-estrutura aeroportuária com mais investimentos, como nos quatro primeiros anos do governo Lula, estaríamos numa situação privilegiada.

JC - Gol e TAM estavam preparadas para ocupar o mercado deixado pelo Varig?

Wilson - Não, tanto que continuam sem estar preparadas. Temos de continuar a estimular outras companhias aéreas. São Paulo precisava ter uma aviação regional muito mais forte, mais intensa. Com a dificuldade da Varig, a queda da Vasp e da Transbrasil, mais de 85% do mercado ficou entregue à Gol e à TAM, o que é muito ruim. Veja a Embraer, reconhecida mundialmente como uma das empresas mais eficientes. Tanto que nos grandes países da Europa, nos Estados Unidos se opera com aviões da Embraer, de 90, 100 lugares. No Brasil você não tem avião da Embraer. Por que? Porque o BNDES não financia. Empresas como essa deviam ser não só exportadoras, mas empresas cujos produtos deviam ser uma marca de orgulho, usada no País em que ela existe. Eu ouvi hoje que a BRA assinou contrato para 50 aviões – achei a notícia mais agradável que eu podia receber, do ponto de vista da aviação comercial. Que cresça a BRA, a OceanAir, mas que a gente possibilite a construção de empresas regionais.

JC - O senhor defende também a necessidade de trens-bala em SP, entre os aeroportos.

Wilson - Quando fui da Infraero, procurei manter relacionamento com o governo estadual de São Paulo, com Geraldo Alckmin, para a construção de trem-bala entre Guarulhos e Congonhas, entre Viracopos e Congonhas. Mas o governo federal não tem recursos para isso. Então aí é que entra: no lugar de pensarem em privatizar a Infraero, por que não fazer parceria público-privada com grupos espanhóis, franceses, que têm demonstrado interesse em construir esse trem-bala? Se não tem recurso para fazer esse tipo de investimento, temos de abrir para a iniciativa privada.

JC - Os estudos da Anac são para a migração de cargas para Ribeirão Preto e outras cidades.

Wilson - Ribeirão Preto é um aeroporto estadual, que mostra que podem ser construídos aeroportos por outros governos e pela iniciativa privada. Quando o investimento é bem feito e preciso, você tem retorno. Mas me preocupo com o restante do País. Quem vai tomar conta dos aeroportos de Tabatinga, Tefé, Cruzeiro do Sul? Uruguaiana, Pelotas, Bagé – e estou citando Estados ricos, no sul do País. Não quero nem falar do Nordeste. Quem vai ficar com aeroporto de Campina Grande, que só tem um avião pousando à 1 hora da manhã? São essas coisas me preocupam. Este é um País grande, continental, que precisa ter uma estatal forte como a Infraero. A proposta de privatização não condiz com a realidade do País.

JC - Voltando às cargas: elas precisam mesmo sair de Viracopos?

Wilson - Elas podem ficar lá, mas temos de fazer investimentos maiores no espaço de passageiros em Viracopos. Ele tem todo o potencial para ser o mais importante do País. Agora, Campinas fica a 100 km de São Paulo. Então temos de pensar no acesso. Nos grandes aeroportos do mundo inteiro você tem metrô, trem-bala, acesso rápido.

JC - E de carro tem os pedágios...

Wilson - Sim. E para Guarulhos não seria um trem só para passageiros do aeroporto. A mesma coisa em relação a Campinas. A malha ferroviária está em boa parte sucateada em todo o País. A malha rodoviária melhorou em São Paulo porque foi privatizada. Não sou contra a privatização: existe aquela que beneficia o País e aquela que prejudica.

JC - O senhor vê outros aeroportos de SP com possibilidade de atrair passageiros e investimentos?

Wilson - Sim, através da iniciativa privada. Quando a gente fala em Ribeirão Preto, temos outros aeroportos que poderão ser construídos pelo governo do Estado. A Infraero tem de fechar a participação nos aeroportos que já existem. Ela está fincada em todos os Estados do País. São 67 aeroportos da Infraero. Não tem por que ampliar. Não existem mais recursos financeiros.

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