Articulistas

O tempo vai morrer com o tempo


| Tempo de leitura: 4 min

A entropia ou “troca interior” surgiu como uma palavra cunhada do grego e usada pela primeira vez pelo físico alemão Rudolf Clausius (1822 - 1888). A idéia a ela associada se deve ao engenheiro francês Sadi Carnot (1794 -1832) que dedicou grande parte de sua existência ao estudo das máquinas a vapor, objetivando obter o seu máximo aproveitamento. Apesar de sua extrema importância, já que afeta, diretamente, a sobrevivência humana no planeta, com a entropia ocorre um fenômeno curioso: tem sido ignorada pela opinião pública.

A entropia é abstrata, insidiosa e, de forma mais compreensível, mas, menos precisa, equivale a desordem. No mundo vemos a desordem progredir espontaneamente sem exigir esforço, ao passo que a implantação da ordem obriga-nos a penoso trabalho de arrumação constante. Em outras palavras, a tendência natural é tudo se desarranjar com o passar do tempo e isto está vinculado a uma lei natural fundamentada na probabilidade: numa competição, ordem versus desordem, a desordem tende a levar vantagem. A Termodinâmica (Ciência que estuda a relação entre as várias formas de energia) não proíbe o oportunismo entrópico, mas adverte: para a manutenção de um sistema altamente ordenado, deve-se reabastecê-lo de energia para vencer a tendência à degradação. Esta energia será, por sua vez, posta na conta do ambiente externo e, em maior grau do que a ordem assim obtida.

O homem da civilização do consumo só pode manter este complexo sistema tecnológico graças a um imenso aporte de energia. Por sua vez este sistema está sujeito a duas graves limitações. Primeira, na maior parte, ele é alimentado por energias primárias fósseis. Exaurindo-se recursos como o petróleo e o carvão, o sistema tecnológico atual vai se modificar e muitos, dos atuais processos produtivos, desaparecer. O segundo limite é formado pelos rejeitos produzidos. As alterações ambientais que hoje mais preocupam são determinadas por atividades que, no curto prazo, oferecem vantagens ao homem ou a uma parte da sociedade, mas que, no longo prazo, contém o risco de minar a nossa adaptabilidade ao ambiente e de comprometer o destino da biosfera. Nos dois últimos séculos, tanto a presunção de uma disponibilidade ilimitada de energia como a sub-valorização das implicações ambientais nos levaram a privilegiar mais a potência do que o rendimento, ou ainda, mais a velocidade do que a parcimônia na exploração dos recursos do planeta. Assim, a produtividade não deveria ser medida pela maior quantidade de bens econômicos produzida num determinado tempo, mas pela maior quantidade produzida com o menor dispêndio energético possível ou pela criação da ordem que deixe menos desordem. Se existe um princípio (o Primeiro) estabelecendo a conservação da energia; há um outro (o Segundo), ligado ao conceito de entropia, impondo restrições ao sentido da transformação de energia e indicando que, a cada transformação, dispomos sempre de menor quantidade de energia utilizável, isto é, ela se degrada a cada transformação. Quando queimamos carvão ou lenha, por exemplo, o fornecimento de energia não decresce. Nunca haverá uma crise de energia porque a energia disponível no mundo é sempre a mesma. Estamos vivendo uma crise de entropia, o que significa que a energia está se tornando menos disponível. Neste sentido o que é necessário fazer não é conservar energia, isto a natureza faz automaticamente; temos que encontrar a melhor maneira de usar a energia para evitar uma grande produção de entropia.

No meio desta desordem toda surge uma corrente em sentido inverso ou avançando em direção oposta ao desarranjo total: a vida, que se manifesta como fenômeno criador de ordem. Este fato constitui um dos grandes enigmas que ainda desafiam a Ciência. Como explicar a contento o surgimento de um sistema altamente complexo e ordenado como o representado pelos seres vivos? Para manter-se, um sistema biológico necessita do aporte de energia externa sob a forma de alimentos. Com o passar do tempo, sua entropia tende a aumentar e a ordem inicial existente tende a se transformar em desordem, com a deterioração das suas funções, culminando com a morte. Por isto pode-se afirmar que o sentido do aumento da entropia é o sentido do tempo – quanto mais tempo um sistema biológico vive, maior é a degradação da sua ordem interna estabelecida inicialmente. Um processo irreversível que pode ser acelerado pelas emoções negativas ou retardado pelas emoções positivas.

Por isto, também, não podemos pensar num tempo uniforme e linear, mas num tempo entrópico que se degrada com o tempo, tendendo assintoticamente ao fim do próprio tempo ou, como se poderia dizer: “o tempo vai morrer com o tempo”.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru

Comentários

Comentários