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Um país contraditório


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A sociedade brasileira, infelizmente, já está se habituando aos casos paradigmáticos e contraditórios. Com efeito, no Brasil, há número infindável de situações em que ocorrem, ao menos, duas vertentes insofismáveis. Aqui e acolá, o contraste de acontecimentos é acentuado, propiciando à mídia, sem alarde e esforço, manter, ao longo dos anos, altos índices de ‘audiência’. Não é difícil arrolar alguns fatos para comprovar a afirmativa.

Assim, numa fatídica noite, brasileiros ficaram revoltosos com desastre aéreo, o qual vitimou muitas pessoas, ensandecendo milhares de pessoas; todas, de forma unânime, indignaram-se com a hecatombe. A imprensa, como não poderia deixar de ser, noticiou, com amplitude e detalhes técnicos, o maior acidente da história nacional. Dores, sofrimentos, lágrimas dos parentes das vítimas, tudo isso, de algum modo, comoveu o compassivo e (por que não?) acomodado povo brasileiro. Finalmente, não?

De outra parte, ‘neste mesmo país’, com volúpia, os jogos Pan-Americanos ocorrem na cidade do Rio de Janeiro. Inúmeras pessoas participam das ‘festividades’. O desempenho de ‘nossos atletas’ surpreende a comunidade esportiva, apesar do desprezo do Estado e do empresariado nacionais. Timbrando cintilantes medalhas, esses competentes judocas, nadadores e praticantes de artes marciais, dentre outros, passaram a integrar seleto grupo de esportistas, observados mundo afora.

Mas, enquanto no ginásio e no campo as disputas dos atletas (alimentados) acirram-se, há milhares de menores (brasileiros) abandonados pela fome e pelo desemprego; além disso, na urbe, polícia (brasileira) e ‘bandidos’ (brasileiros) digladiam-se, numa contenda, no mínimo repreensível; e corpos (de brasileiros), putrefatos, ‘surgem’ nas matas do cerrado, esquecidos numa ‘noite de boteco’...! Parece ressurgido o muro de Berlim, no Rio de Janeiro! De um lado a festa, a pompa; de outro, a pobreza, a violência, a insegurança.

Fala-se, ainda, no recrudescimento da economia brasileira. Por conta disso, dizem os cultos, estaria havendo melhoria significativa nos diversos segmentos da sociedade, especialmente na camada mais pobre dela.

Apesar disso, ainda se praticam, no mercado brasileiro, juros excessivos, os quais atingem, de forma negativa, não só os pobres, mas, sobretudo, a classe média. Juros bancários, de crédito, ou cheque especial, para aquisição de bens duráveis, ou da casa própria; nada importa. ‘Daria para adquirir duas ou mais geladeiras, ao final do pagamento de uma’...! Sobreveio a lei de falências, a qual privilegiou o capital, em detrimento de salários dos empregados; melhorou a ‘economia mundial’; há recordes de arrecadação tributária... Mas os juros estão aí para quem quiser ‘vê-los’ e, quem sabe, usufruí-los! Sem mencionar: impostos incidentes sobre a folha de salários dos empregados, sobre a renda dos servidores públicos, sobre a produção de empresas nacionais; estradas (algumas) boas, com pedágios altíssimos, desproporcionais; estradas, custeadas pelos governantes (a maior parte), em estado de putrefação; serviço de telefonia e de luz, cujas tarifas são, no mínimo, alarmantes; saúde e educação em condições precárias. Dois ‘brasis’!

Assim, existem, claramente, as seguintes camadas ‘básicas’ na pirâmide social brasileira: algumas (poucas) pessoas ricas, com carros de altíssimo valor, apartamentos caros e polpudas contas bancárias, inclusive no exterior; no lado oposto, em número bem maior, encontram-se os pobres, que precisam se manter por meio de agrados governamentais, pois não têm condições para sobrevivência; e, no meio termo, há a classe média, composta de funcionários públicos, empresários, profissionais liberais e outros. Ela é o segmento na sociedade que mais contribuem para o desenvolvimento nacional, mediante trabalho, pagamento de impostos e cultura. Mas, é caso paradigmático (raro) ‘em plena e definitiva extinção’! Nosso país é, efetivamente, contraditório!

O autor, Heraldo Garcia Vitta, é professor de direito na ITE-Bauru e Juiz Federal em Bauru

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