“Aos 13 anos eu aprendi a tocar acordeão. Aos 17, violão e aos 25, trombone. Agora, as minhas mãos não agüentam mais”, declara Rosalbino Bombini, com 104 anos, apaixonado por música e com muitas histórias para contar. Nascido em Itaju e morador de Bauru há 67 anos, Rosa, como é chamado pelos mais próximos, recorda-se de detalhes de seu passado com precisão de data. Lembra-se de ter visto aviões da Segunda Guerra Mundial rasgando o céu estrelado da cidade, quando trabalhava de guarda noturno.
O historiador Luciano Dias Pires confirma que a memória de Rosa é realmente boa: “Os aviões da Força Aérea Brasileira (FAB), envolvidos na guerra, faziam treinamentos aqui por causa do céu limpo à noite”, confirma. A memória de Rosa sempre foi prodigiosa: tanto para a música quanto para a alfabetização - ele foi autodidata. “Aprendi a escrever praticamente sem professor. Só mandavam alguém para nos ensinar na vila onde eu morava nas vésperas das eleições”, recorda sobre a época em que vivia na região rural de Itaju.
Rosa trabalhou desde os 8 anos, quando começou a ajudar seus pais na lavoura. Diz que o segredo da longevidade é trabalhar. Apesar da idade, atualmente ele anda tranquilamente, apenas com o auxílio de uma bengala, e a sua voz é vigorosa. A família de Rosa é de origem européia: os pais moravam na Calábria, Itália, e vieram para o Brasil após a morte do primeiro filho. Em terras brasileiras, nasceram oito descendentes dos Bombini dos quais, apenas Rosa e a irmã Gessy, de 97 anos, estão vivos.
De sua mãe, o aposentado guarda em seus pensamentos uma lembrança que revela dedicação. “Lembro-me de certa vez que perdi uma caderneta na estrada e ela andou 1 quilômetro e meio na chuva até achar”, conta rindo. Ele sempre foi um homem alegre, conta o filho Adauto. Além de tocar na banda de sua cidade, Rosa também gostava de pescar com os amigos.
Conta que certa fez pegou um jaú de 82 quilos na rede, no rio Tietê, fato que promete não ser “história de pescador”. “Picamos o peixe inteiro e vendemos por quilo”, recorda-se com ar saudoso em seu semblante.
As idas ao Tietê renderam também grandes aventuras, como essa que ele narrou entusiasmado: “Certa vez encontramos uma sucuri no caminho. Meu amigo deu um tiro bem no meio da boca dela e eu já puxei meu facão para usar caso a cobra reagisse. Daí, ele andou para o lado e atirou de novo. A sucuri era tão grande que não conseguimos carregar, tivemos que chamar um carro!”, relembra.
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Passatempo é dormir
Rosa se aposentou como funcionário do Departamento de Estradas e Rodovias (DER) em 1973. Quando era mais jovem, gostava de ouvir o violonista Canhoto na rádio. Agora, nem música, nem televisão. Não enxerga muito bem devido à catarata e ouve com dificuldade, o que lhe fez vender os seus instrumentos musicais. Seu passatempo preferido é dormir.
“Dormir e deitar na cama. Eu fico a semana inteira deitado”, revela. No quarto do aposentado, ao lado da cama, uma foto em branco e preto, mas cheia de cores no sorriso: sua mulher, Brandina Falsetti Bombini, que faleceu após 68 anos de casados. “O casamento foi o momento mais emocionante da vida dela”, confessa. “O pai dela era baixinho valente, briguento para burro. Eu corri duas vezes dele porque ia conversar com a Brandina na janela. Mas me estimava, viu!”, completa descrevendo o sogro italiano que, segundo ele, ostentava uma coleção de armas na parede de sua casa.
Da união com Brandina, nasceram cinco filhos. Hoje, mora no Bairro Bela Vista com o caçula, Adauto Bombini, 71 anos. “Para quem eu mais rezo é por você”, diz referindo-se a Adauto. “É porque você tem muita tosse. É só você tossir que eu estou rezando”, completa Rosa, que tem medo de perder o filho e ficar sozinho no mundo. “Para mim, o mundo é ruim porque eu não posso sair na rua nem nada. E tenho medo de ficar sozinho dentro de casa, porque temo ficar doente”, afirma. Mas a fé é consolo. Católico, deixa em cima do seu criado-mudo três imagens de Nossa Senhora Aparecida que velam o seu sono e protegem o seu destino.