Sim. É verdade. O povo brasileiro já foi catalogado por sociólogos daqui e de outras partes do mundo como um povo alegre, que ri, que acha graça em tudo. Em muitos países, quando se fala em Brasil ou em brasileiro, vêm à mente de quem ouve ou fala a tríade mais previsível possível: futebol, samba e carnaval, condimentada pela imagem nacional mais famosa ainda: a morena seminua com sua lascívia a serviço da imaginação do turista em suas incursões sexuais aqui na terrinha. O brasileiro tem capacidade ímpar de olhar um problema de sua ótica particular e dar-lhe a sua solução. Escândalos que geram até suicídios de políticos em países asiáticos, no Brasil... viram piada. Viram piada no Zorra Total, no Casseta & Planeta, etc...
Em outro país, há poucos anos tentaram diminuir a aposentadoria dos idosos. Isso gerou manifestações de rua dos jovens, que protestaram. No Brasil? Vira piada no Zorra Total, no Casseta & Planeta. Máfia dos Vampiros? Virou piada. Valerioduto? Virou piada. Mensalão ? Piada novamente. Sanguessugas? Idem. Renan-Empreiteira-Mônica? Caminha solenemente (ou seria mais apropriado dizer debochadamente) rumo à Pizzaria mais próxima, se eu não estiver enganado. E quero estar. O brasileiro sabe que trabalha quase cem dias no ano somente para pagar impostos. Acha graça nisso. Também, pudera, a montanha de dinheiro arrecadada serve para nos dar os melhores sistemas de saúde e educação do mundo. Serve também para nos oferecer a melhor malha viária do mundo, bem conservada, sem buracos e sem pedágios. Dá-nos também a energia elétrica mais barata do mundo, com poucos impostos embutidos. Tudo isso sem qualquer indício de superfaturamento, é bom que se diga. Então, riamos todos. Achemos engraçado crianças subnutridas do Nordeste condenadas a passar a vida toda recebendo migalhas dos corruptos homens “du pudê” em troca do voto fiel da família toda. Gargalhemos ao saber que o STF e o STJ nos últimos dezoito anos não fisgaram um único peixe grande. Uma piavinha ou um piauzinho de vez em quando, vá lá. Mais que isso, não?! Achemos superengraçado ter acabado em calabresa o Ministério do Trabalho ter encontrado trabalho escravo numa das fazendas de um inocente “diputado”. Está na décima legislatura seguida o “nobre parlamentar”. Riamos do idoso morto no corredor de hospital público desaparelhado porque a grana que deveria melhorá-lo foi parar na Suíça a engordar conta de uma malta de políticos ladravazes. Achemos normal, além de engraçado, é claro, quando nos informam que a punição mais grave imposta a um ministro de alta corte de Justiça é a antecipação de sua aposentadoria com proventos integrais. Riamos todos, em uníssono, quando um senador renunciar para não perder os direitos políticos e... puder ser eleito novamente depois. Não levemos nada a sério. O cara que leva as coisas a sério é visto como um “mala-sem-alça”, uma “sarna galega”, um “sogra”, um “porreta”, um “xarope” que quer consertar o mundo. Riamos todos de tudo. Afinal, rir é o melhor remédio.
O autor, Sidnei Rodrigues, é colaborador de Opinião