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Antes tarde...


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Herdamos dos nossos avós lusitanos uma mentalidade rentista, não empreendedora. O que vale é o hoje. O resto a gente empurra com a barriga. Lula demorou dez longos meses entre as duas tragédias da aviação nacional, nas quais morreram 350 pessoas, para, finalmente, anunciar mudanças no comando geral do país. O ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Nelson Jobim, sempre resistiu aos convites de Lula (“Minha mulher não deixa”), mas decidiu aceitar a carta branca para substituir Waldir Pires no Ministério da Defesa. “A história não registra intenções, só resultados” disse o novo ministro num tom um pouco rude, mas merecido, para o seu antecessor. Se houver bons resultados Jobim poderá ser ungido por Lula como candidato oficial à sucessão. É militante do PMDB, partido da base do governo. Isso já basta para o PT se conformar em não ter no páreo um candidato autêntico. Os principais quadros, como José Dirceu e Palocci, foram postos fora de combate prematuramente, na ânsia de dividir logo o butim. Para responder com outro velho ditado popular, só depois da porta arrombada se instalou a fechadura. Lula vai substituir, também, o presidente da Infraero e, vedado por lei de demitir, solicitou que os cinco diretores da Anac, apaniguados de Dilma Roussef e José Dirceu, peguem o boné e zarpem para outra freguesia. “Meno male”.

Por deformação ideológica do PT, as agências foram os primeiros alvos de ocupação do governo Lula. Uma espécie de “terceirização do governo” na percepção que o presidente e equipe tinham do ato de governar. Agências, como a Anac, Aneel e Anvisa são instrumentos modernos de administração pública, testados com sucesso em todo o mundo. Foram criadas para combater o clássico emaranhado burocrático e ineficiente do próprio Estado e, para fiscalizar concessionários privados. Aqui, pelo menos no caso da Anac, não se fez nem uma coisa e nem outra. Essa agência, até o presente momento só serviu para dar proteção ao privado e respaldar o caixa das próximas eleições. Ao nomear para a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) um técnico em turismo, uma advogada e um político, tão especializados em aviação como qualquer passageiro da Ponte Aérea, o Planalto vulnerabilizou-se numa área estratégica. Agora, tenta reagir com o anúncio de uma série de medidas - corretas, embora tardias - e com a mudança de nomes. Lamente-se a perda de tantas vidas e lágrimas derramadas.

A Nação quer respostas confiáveis, quer a agilidade necessária que faltou até agora, quer soluções para os problemas nos aeroportos e nas companhias aéreas e, principalmente, quer segurança para seus filhos, seus pais, suas mães, seus parentes. É o mínimo que o Estado pode oferecer aos cidadãos que pagam impostos. Enquanto isso, o ônibus confiável, limpo, com o dobro de espaço entre as poltronas, é a opção confortável. Melhor que esperar horas e horas e passar a noite dormindo no chão frio e pisoteado do aeroporto. Não fossem as estradas federais tão esburacadas, os brasileiros voltariam de bom grado para o velho e confiável busão.

Passou da hora de tomar atitudes concretas para deter o caos. De nada adianta o presidente Lula fugir das vaias no Sul do país. Dizem os espanhóis que “com la barriga llena, el corazón está contento”. No Nordeste, o Bolsa-Família ainda rende aplausos, mas chegará o momento em que vão vaiá-lo até de estômago cheio. Lula acaba de ser apupado em Sergipe, aonde foi acudir com dinheiro e obras o governador do PT Marcelo Déda. Daqui a pouco não haverá mais lugar para o aplauso nem no isolamento da floresta. A natureza irá reclamar. Chegou o momento de descer do palanque. A direita já esboça o movimento “Fora Lula” - o que também é execrável. Quem precisa de apoio, neste momento, são os familiares das vítimas das tragédias e os usuários da aviação civil. Ao governo resta a purgação dos pecados pela falta de ação que deixou homens, mulheres, moços e velhos, adultos e crianças, abandonados nos aeroportos brasileiros.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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