Política

Goldman: SP paga conta da crise aérea

Por Fábio Zambeli | Da Associação Paulista de Jornais, especial para o JC
| Tempo de leitura: 6 min

O vice-governador Alberto Goldman (PSDB) acusa o governo federal de tentar atribuir parte da responsabilidade pelo acidente com o Airbus da TAM a instituições ligadas ao Estado, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Ele adverte que administração de José Serra (PSDB) sofre os reflexos da tragédia de Congonhas e terá que correr contra o tempo para atender às novas demandas de infra-estrutura decorrentes da redistribuição do tráfego aéreo.

“Tentaram envolver o IPT no episódio da liberação da pista, mas o instituto não tem nada a ver com isso. A crise é lá (em Brasília), mas nós estamos sofrendo aqui as conseqüências e o Estado está fazendo sua parte”, disse o tucano.

Em entrevista exclusiva concedida à Associação Paulista de Jornais, Goldman, que acumula o comando da Secretaria de Desenvolvimento, indica que as PPPs (Parceria Público-Privadas) serão fundamentais para financiar obras que melhorem os acessos aos aeroportos que absorverão os vôos desviados de São Paulo. “O trem que faz a ligação com Guarulhos já foi aprovado pelo conselho gestor das PPPs e deve sair logo”, afirma.

Ex-ministro dos Transportes, Goldman é mais prudente ao avaliar o chamado ‘Expresso Bandeirantes’, que interligaria a Capital ao aeroporto de Viracopos, em Campinas. “Há o desejo do Estado, mas a viabilidade ainda não está concluída.”

O vice-governador criticou a letargia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na gestão da crise aérea, mas elogiou a indicação do novo ministro da Defesa, Nélsom Jobim, com quem mantém estreitas relações desde o período em que foram colegas na Câmara dos Deputados. “Parece que finalmente o governo acordou. É uma luz no fim do túnel.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Associação Paulista de Jornais - Qual o impacto imediato da crise aérea sobre o Estado, a economia. O governo já mensurou?

Alberto Goldman - O impacto já havia. Nós já tínhamos tido problemas com transportes de carga no passado recente. E agora, desde o ano passado, mais agudamente se evidencia o problema do transporte de passageiros. Aeroportos são instrumentos de infra-estrutura muito importantes para o desenvolvimento do Estado. Nós temos hoje grandes rodovias, temos rodovias expressas, duplicadas, com investimentos pesados, mas também temos gargalos.

APJ – E os aeroportos hoje são estes gargalos para o desenvolvimento do Estado?

Goldman - Os aeroportos e portos são gargalos na logística do Estado de São Paulo. Então isso já acontecia. Eu diria que este infausto acontecimento (o acidente com o Airbus da TAM) deixa mais clara uma questão que vinha sendo discutida pelos técnicos do governo do Estado e que passou a ser discutida pelo conjunto da sociedade.

APJ – E como o Estado vem agindo neste processo?

Goldman – A proposta nossa é de acordar o governo federal, pressionar o governo federal para que ele se conscientize. E agora parece que eles começam a acordar. A pressão que nós fazíamos enquanto governo do Estado passou a ser uma pressão pública. É claro que nós queremos participar da decisão, até porque nós precisamos participar. A presença do Estado de São Paulo nestas decisões é fundamental.

APJ – E os aeroportos do Interior? Falta muito para que eles possam compor melhor a malha aérea neste momento de crise...

Goldman - Vai depender agora das ações do governo federal no sentido da redistribuição da malha aérea. Pode ser que nós tenhamos que colocar estes aeroportos dentro do jogo, da arrumação nova que vai ser feita.

APJ – E o chamado Expresso Bandeirantes, com a conexão com Viracopos?

Goldman - Esta questão de Viracopos ainda não está totalmente equacionada. É um desejo do governo do Estado, mas a viabilidade disso ainda não está concluída.

APJ – A princípio, o senhor deu declarações que indicavam uma preocupação com o fato de o governo federal tentar se esquivar de suas responsabilidades neste colapso aéreo. O senhor mantém este receio?

Goldman - Eu diria que pelo menos a Infraero tentou durante a semana jogar em uma instituição do Estado, que é o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), uma responsabilidade que não é dela, na autorização do uso da pista de Congonhas. No sentido de que o IPT estaria avalizando que a pista está em ordem, coisa que absolutamente o IPT não fez e não faz.

APJ – Então esta tentativa de transferir responsabilidade se estende para o aspecto técnico?

Goldman - Foi uma tentativa de envolver o IPT neste episódio. O IPT não tem nada a ver com isso. O IPT tem alguns contratos com a Infraero para estudar certas especificações de algumas coisas da pista que foram pedidas e está trabalhando, apresentou um relatório parcial e tem ainda mais um mês para apresentar seus relatórios todos. E estão, mesmo assim, tentando envolver um órgão desta magnitude neste processo. O IPT não tem nenhuma participação, não tem nada a ver com liberação de pista. Tem a ver com um estudo específico pedido pela Infraero. A Infraero pediu para o IPT estudar o asfalto, o IPT estudou. O IPT foi contratado para apresentar análise dos índices de atrito da pista e apresentou. Tem muitos outros pontos que vão ser analisados. Mas, em nenhuma destas análises cabe ao IPT dizer se a pista está ou não em condições.

APJ - Esta redistribuição da malha tem causado apreensão em algumas cidades que devem absorver vôos desviados, até pelas condições precárias em que se encontram os terminais e seus acessos. Esse processo preocupa o Estado?

Goldman - Claro que preocupa. O Estado vai ter que tomar algumas medidas para tentar atender esta mudança da malha. Não estamos sabendo ainda exatamente o que é e qual é a atuação que teremos que ter do ponto-de-vista aeroportuário e do ponto-de-vista dos acessos a estes aeroportos. Nós estamos dispostos a dar nossa parte para colaborar e é nossa obrigação.

APJ – Foi criado algum comitê, algum gabinete especial para avaliar a crise e seus desdobramentos?

Goldman – Não, não. A crise está lá (em Brasília). O que acontece é que nós podemos sofrer as conseqüências da crise. E nós vamos ter que enfrentar, como estamos enfrentando aqui.

APJ- E como o Estado já vem enfrentando?

Goldman – Os diversos órgãos do Estado estão envolvidos. Os hospitais estão atendendo, os institutos de criminalística estão envolvidos, a polícia está investigando. Ou seja, as conseqüências nós já estamos enfrentando.

APJ - Mudando um pouco o foco, como estão sendo fomentadas as Agências de Desenvolvimento Regional, consideradas vitais como instrumentos de estímulo à organização dos setores produtivos?

Goldman - Acreditamos que as ADRs têm que ser produto da ação local. O governo apóia, mas a estruturação cabe especificamente às forças locais. O caso típico que temos é o de São José dos Campos. Neste caso, a própria prefeitura assumiu o Parque Tecnológico e nós estamos implantando uma Fatec. Nós estamos dando este respaldo para que a organização local tenha resultado.

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