Estabelecer um vínculo entre o sofrimento mental e os aspectos organizacionais. São questões subjetivas como essa que ajudam o psicólogo na tarefa de compreender as práticas dos trabalhadores e em situações relacionadas ao ambiente de trabalho.
Esse é um dos temas do livro “Contribuições do psicólogo para a promoção de saúde, qualidade de vida do trabalhador e desenvolvimento das organizações”, desenvolvido pelos professores de psicologia organizacional e do trabalho da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Luiz Carlos Canêo, Edward Goulart Júnior e Maria Cristina Frollini Lunardelli, em parceria com a subsede Bauru do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP). A obra tem originado também temas que o JC vem publicando em forma de matérias desde o mês de maio na seção de RH.
Em todos os textos do livro é possível encontrar um tópico sobre o papel do psicólogo em determinadas situações que acontecem no ambiente do trabalho, sobretudo no que se refere à saúde e ao bem-estar dos trabalhadores. Mas como a psicologia pode contribuir com este setor?
A psicóloga Andréia de Conto Garbin, especialista na área e conselheira suplente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), afirma que a psicologia tem contribuído para “operar na crítica à naturalização do sofrimento”. Isso quer dizer que os psicólogos que atuam na saúde do trabalhador têm como função impedir que o indivíduo se martirize, aceitando o sofrimento como algo inerente ao trabalho, desconstruindo a suposta ‘culpa’ do trabalhador em caso de adoecimento.
“Tais concepções responsabilizam o trabalhador sobre o processo de adoecimento, tratamento e recuperação, excluem o contexto de trabalho na condição de saúde dos coletivos humanos e reforçam a imposição das organizações acerca da modificação comportamental”, afirma a psicóloga.
Um problema apontado por Garbin na atuação do psicólogo é o fato dele se manter longe da realidade do trabalho e desconhecer as condições e a dinâmica de cada local. Segundo ela, o psicólogo atua mais como assessor e consultor. “Distante do dia-a-dia do trabalhador na situação real de desenvolvimento das atividades, o profissional baseia-se nas atividades prescritas, que na maioria das vezes são impossíveis de serem executadas”, aponta.
Ela ressalta que a análise do sofrimento psíquico resulta da confrontação do homem frente à organização do trabalho, portanto o psicólogo precisa analisar a fadiga mental, a falta de controle sobre o tempo, o trabalho monótono, distância entre planejamento e execução, acúmulo de tarefas, hierarquia rígida, entre outras condições de trabalho que interferem na condição de saúde do trabalhador.
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Comportamento
Toda a ação do psicólogo no ambiente de trabalho deve ser apoiada em princípios éticos, solidariedade, respeito e responsabilidade. Diante disso, vale a pena discutir alguns aspectos éticos da atuação do psicólogo do trabalho. Este profissional se integra às organizações na condição de um técnico que pode melhorar a produtividade, através do manejo dos aspectos comportamentais dos funcionários.
Entre as principais obrigações dos psicólogos estão a seleção de trabalhadores, escolhendo os mais aptos para determinados cargos, a motivação , avaliação de desempenho, entre outros. A coordenadora da subsede de Bauru do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), Sandra Elena Sposito, destaca que em todas essas funções o profissional deve se ater ao novo Código de Ética do CRP, aprovado em 2005.
Em casos como recrutamento e seleção de pessoal, por exemplo, é ilegal a utilização de critérios relativos à aparência, cor, raça, idade, religião, sexo, entre outros. No caso de uma empresa indicar sigilosamente que a seleção seja feita nesses critérios, o psicólogo deve negar. “A obediência ao estabelecimento desse critério configura não só uma ação criminal, como também a violação do Código de Ética do Psicólogo”, afirma.
Este é apenas um dos exemplo, mas a coordenador do CRP de Bauru salienta que o psicólogo deve atuar em todas as áreas de acordo com os preceitos do Código de Ética. “O psicólogo não pode se furtar de buscar uma avaliação legítima do impacto da organização do trabalho na subjetividade humana, considerando as conseqüências positivas e as seqüelas do adoecimento e sofrimento psíquico, que tem origem no trabalho”, aponta, explicando que o profissional deve implantar medidas em favor da diminuição desta situação, em prol da saúde do trabalhador, nem que seja em detrimento da lucratividade da organização.