Foi na música onde Moraes Moreira passou mais da metade de sua vida, exatamente 38 anos. Das centenas de composições gravadas - 461, ele diz rápido, com o número na ponta da língua - suas letras passaram pela voz de Cássia Eller, Simone, Elba Ramalho, Fagner e tantos outros intérpretes brasileiros. De todas, ele não prefere, nem desfaz de alguma. “Tenho orgulho de todas, mesmo as mais obscuras”, afirma.
E todas as músicas chegam a ele, sem buscar. Às vezes já vêm prontas, letra e melodia. Outras, a letra aparece primeiro, a melodia por último, ou vice-versa. O auto-proclamado compositor de plantão se diz sempre preparado para registrar qualquer composição.
Sem dramas, conta que já não teve onde morar nem o que comer. Questão de tempo, porque desde os tempos no sertão da Bahia, o garoto sabia, sentia que deveria insistir no ideal: a música. De encontros, surgiram Os Novos Baianos, que revolucionaram a música brasileira.
Mas ele não é daqueles que se prende ao passado. “Novos Baianos foi algo mais conceitual. Eu tive mais sucesso tanto comercial, quanto de popularidade na carreira solo. E hoje em dia eu sou um artista que não precisa ir à TV todo dia, já tenho meu nome feito. Sou independente no melhor sentido da palavra”, coloca.
Ainda nos Novos Baianos, enfrentou os trios elétricos para defender a música carnavalesca. A inspiração ele tirava das marchinhas, marchas-rancho, frevo e sambas que escutava pelo rádio de pilha. Em 1975, colocou um bloco na rua e, passados uns anos de folia, soltou a voz e se tornou o primeiro cantor de trio elétrico.
Ao contrário de muitos conservadores que teimam em dizer que a música brasileira está mortinha da silva, Moraes Moreira discorda. “A música é sempre rica. Eu não vejo crises na MPB. Sempre tem alguém bom. O problema é que as gravadoras são muito burras e só investem no que é comercial e passageiro”, defende o guardião.
O Carnaval merece ressalvas: “Apesar da elitização e da selvagem comercialização que tomou conta do Carnaval da década de 90 para cá, ainda há grupos resistentes”, afirma Moreira, grande admirador de Chico Science, morto em 1997.
Livro
Em setembro, o livro “A História dos Novos Baianos e Outros Versos”; mais para frente, quem sabe daqui um ou até dois anos, o DVD homônimo musicado da obra. O músico e também autor de “Instrumentos Meus”, Moraes Moreira, se prepara agora para uma nova aventura.
Diferente da forma como contou Galvão, o companheiro de peladas e músicas no sítio de Jacarepaguá, em “Anos 70: Novos e Baianos”, lançado em 1997, a história de Moreira é escrita em literatura de cordel. “Foi muito rápido, fiquei mergulhado uns seis meses para escolher o que ia botar”, conta o músico, sem se aprofundar no conteúdo das páginas.
Assim como faz canções, os versos também vieram espontâneos e, na opinião do músico, no momento certo de se contar essa história, passar para outras gerações. E, sem receber a pergunta, ele já dá a resposta: “Não, o livro não tem nenhum apelo nostálgico”.
Sua obra é apenas uma lente, a sua, de quem viveu os Novos Baianos. “É para as pessoas entenderem uma parte da história do Brasil imerso em uma ditadura, sem ser por aqueles livros caretas. Eu sou um contador de histórias”, diz.
Questionamentos sobre um possível retorno dos Novos Baianos, como um segundo disco depois da ensaiada volta de 1997 ou então um DVD, são interrompidos com irritação. “Não quero nem falar disso. Não tem volta. Já voltou uma vez, não tem que ficar voltando toda hora” diz, encerrando definitivamente o assunto.