Ao embarcarem na aeronave,
não ouviram o grito do sol,
não sentiram os braços do vento,
não viram o suspiro da terra.
A aeronave deslizou pelo céu límpido,
até estremecer sob a chuva impiedosa.
A água não acariciava, mas agredia,
parecia empurrar para longe,
não era o dia adequado,
que ficasse para outra vez.
A aeronave não percebeu
e desceu, ave que busca o solo.
A aeronave, com dezenas de sonhos
em seu ventre,
rodou desesperadamente,
rodou desenfreadamente,
sem conseguir parar,
sem conseguir pousar.
A chuva enegreceu,
os relâmpagos apagaram,
a cidade de São Paulo emudeceu
no instante em que a aeronave
chocou-se com um edifício.
A explosão foi um terremoto, um
bombardeio.
A aeronave desintegrou-se em chamas;
os gritos de socorro foram sufocados,
traduzidos em olhares de pânico,
que não compreendiam como a calmaria
de outrora, dos prados gaúchos,
pôde transformar-se numa fogueira descomunal.
A chuva explodiu em centenas de milhares de choros,
comoveu o país, alcançou o mundo.
A catástrofe provocou o luto,
impediu projetos,
desfez vontades,
queimou dezenas de sonhos,
abalou tantos outros,
apagou a alegria,
revoltou.
Em memória das vítimas do acidente com o Airbus da Tam, em São Paulo - Elson Teixeira Cardoso, escritor, www.entre-textos.blogspot.com