Tribuna do Leitor

A nossa “Alice”


| Tempo de leitura: 4 min

Ao ler e reler maravilhado a carta que o sr. Ivan Goffi publicou nesta coluna, intitulada “Lula é minha Alice”, não pude conter o impulso de comentar sobre esta fantástica e incrível obra de um inglês chamado Lewis Carrol e intitulada “Alice no País das Maravilhas” (1865) e cuja mágica maior é a de ter escrito uma obra passível de sempre ser reinterpretada de uma outra forma quando a relemos em diferentes épocas de nossas próprias vidas e conforme mudamos de pensar, mas que mantém a capacidade de sempre ser atual em sua louca analogia as coisas do poder que nos circunda e na qual o sr. Ivan Goffi foi perfeito em ‘vestir’ tal obra neste estranho personagem que habita o nosso mundo chamado Lula (já começa daí o realismo fantástico que nos sitia)!

Alice no País das Maravilhas deveria ser leitura obrigatória para todos que desejem compreender os dias de hoje uma vez que este livro possue seu lugar na estante da história, ao lado, por exemplo, de uma outra estória que usa e abusa de imagens pretensamente infantis para uma analogia com o mundo dos homens e da política e ao qual eu também recomendo aos que hoje ,adultos, um dia já a leram na infância. Refiro-me ao ‘Mágico de Oz’!

Mas voltando a “Alice no País das Maravilhas’, sem sombra de dúvida o livro é uma das mais famosas obras-primas da literatura universal destinada ao público infantil e que em resumo são fantasias oníricas e lúdicas sobre a realidade e a linguagem... explorando a aparente ausência de sentido em sentenças gramaticalmente corretas, Lewis Carrol foi um dos pioneiros na pesquisa de uma nova ciência do discurso, por meio da simbolização. Aparentemente destinada às crianças, na verdade oculta questionamentos de toda espécie, lógicos ou semânticos, problemas psicológicos de identidade e políticos, tudo sob a capa de aventuras fantásticas, mas que tambem em tudo perfeitamente se encaixa no absurdo deste (des)governo ao qual vige a nossa volta .

A começar pelo mito da adolescência (ou o do despreparo), onde Alice depois de se enfiar em um buraco correndo atrás de um coelho (seria o desejo?) cai, cai e cai até não mais poder para depois em um mundo novo (uma outra realidade?) aumentar ou diminuir de tamanho. Aliás, a personagem Alice está sempre crescendo e diminuindo dependendo da situação e isso, certas vezes, é conveniente ou não para ela. Me digam se é ou não o mais perfeito retrato do homem que nos governa quanto as suas bem calculadas exposições públicas?

E no livro ainda há o episódio no qual Alice em uma certa altura de sua aventura pensa em se fingir de duas (uma para si e outra para o mundo) quando diz: “Mas agora não adianta nada fingir que sou duas pessoas - pensou a pobre Alice - Na verdade, estou tão mínima que o que sobrou de mim mal chega a fazer uma pessoa decente.” Isto porque da verdadeira Alice nada mais se reconhece. Mais uma vez a luva cai sob medida...

Em outro momento, Alice bebe um líquido de uma garrafa na esperança de “crescer de novo” porque ela está cansada de ser uma pessoa pequena em sua verdade/realidade... É fato que no livro Alice gosta de seu novo mundo, cheio de novidades que a cercam e diz: “Acontece que essa vida por aqui pode ser bem divertida...”

Alice está deslumbrada, com certeza!

De outra, a nossa Alice guarda muita semelhança com uma outra ‘Alice’ ao refletir: “Para que serve um livro”, pensou Alice, “sem figuras nem diálogos?”. Faz lembrar ou não uma certa aversão de um certo mandatário para com as coisas do saber em forma de literatura?

Mas nem tudo é festa no mundo louco de Alice e assim, como a nós, pobres mortais, "Alice" também será julgada por seus atos, pelas “cartas do baralho”, mesmo quando contra as tais cartas elas se insurge dizendo: “Quem se importa com vocês" - disse Alice, que já tinha crescido até voltar ao seu tamanho verdadeiro. – Vocês não passam de cartas de baralho.

Aqui eu peço a devida licença do autor para uma resposta mais que cabida a uma certa ‘Alice’ que nos ronda, mas usando da mesma frase encontrada no livro: - “Alice, você está sempre sonhando”...

Grande Ivan (ou deveria eu dizer ‘Ivan, o Grande’?). Na mosca!

Paulo Boccato

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