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Trabalho escravo, mazela incurável


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Frequentemente a imprensa noticia casos de trabalho escravo. São trabalhadores de Minas e do Nordeste, das regiões flageladas, atraídos por anúncios de trabalho em fazendas e nos canaviais, com boa remuneração, alojamento e comida. Uma vez aqui são colocados em alojamentos que são verdadeiras pocilgas e recebem uma alimentação de má qualidade. E tudo isso custando caro, de modo que o trabalhador fica endividado, não recebe o salário e não pode ir embora sem pagar a dívida. A mini série Amazonas, exibida pela Globo, mostrou muito bem essa situação nos seringais. Eram fatos do século passado mas freqüentes nos dias de hoje.

O domínio do mais fraco pelo mais forte, comum nos animais, que o fazem pelo instinto de sobrevivência, é ignominioso no homem, em razão de sua inteligência. Começou como nos outros animais, nos períodos pré-históricos e desenvolveu-se, no período histórico, de formas diferentes, até os dias de hoje. Da escravidão de vencidos em guerras e de raptados, muito comum no Império Romano, aos importados da África, que alimentaram a escravidão nas Américas, chega aos dias de hoje com as características da servidão da Idade Média, A característica principal da escravidão era a ausência total de direitos. O escravo era propriedade do senhor e não tinha direito nem à vida. Na contabilidade das fazendas era registrado como semovente, juntamente com as vacas e os cavalos. Já na servidão, o camponês não era comprado, não era propriedade do senhor, mas ficava preso à gleba por estar sempre endividado. Embora o trabalho fosse de parceria, a parte do senhorio estava sempre preservada, mesmo que o tempo fosse desfavorável e prejudicasse a produção. Quando isso acontecia o camponês tinha que comprar do senhorio e ficava com dívidas que nunca podia pagar. E assim, de geração em geração, seus descendentes não podiam deixar a gleba. O trabalho escravo denunciado hoje em dia é semelhante a isso.

Para uma pessoa com um mínimo de consciência de justiça, fica difícil compreender como alguém pode se enriquecer explorando seu semelhante. Se a gente fica condoído do mendigo, sem ter contribuído diretamente para sua condição de mendicância, como ser insensível com o estado de miséria de pessoas que estão trabalhando para a gente? Como é possível ter a consciência tranqüila sabendo que o nosso conforto e o nosso patrimônio estão sendo conseguidos à custa do sofrimento de outros seres humanos? Muitos atribuem toda a culpa a terceiros. Dizem que não são eles que contrataram, mas o empreiteiro. O empreiteiro, por sua vez, alega que o que recebe também é pouco para oferecer condições melhores. É claro que o responsável direto é o que contrata, mas o dono da propriedade também o é ao permitir essa situação. Ambos estão ganhando pela exploração do trabalhador. A sua riqueza aumenta com o que é tirado do miserável que vem trabalhar aqui para tentar manter a família, que ficou lá, passando necessidades, e no fim volta pior do que veio.

Essa maneira de ver o problema, como um apelo ao sentimento cristão, joga a solução para a justiça divina, que não falha. Contudo, a justiça dos homens, simbolicamente com os olhos vendados, não pode desconhecer essa situação, porque é uma violação de direitos que compre a ela fazer respeitar. Como a fiscalização encontra dificuldade devido à localização, é preciso que qualquer pessoa que tome conhecimento desses casos denuncie ao Ministério do Trabalho ou à própria polícia.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é consultor e ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru

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