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O intelectual e a cultura de massa


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Para muitos intelectuais, a cultura é um fato aristocrático. É o cultivo assíduo e solitário do conhecimento. Por definição, a cultura se oporia à vulgaridade da multidão. Esses intelectuais consideram-se representantes de uma comunidade de super-homens que se elevam – pela recusa em ligar os aparelhos de TV, ou em participar da confecção de qualquer show, documentário ou programa de variedades – acima da banalidade média.

Estamos diante de uma postura radical, questionadora e revolucionária? Não. Mesmo na Grécia Clássica, há 2500 anos, os que pensavam desse jeito eram os filósofos mais conservadores. Heráclito de Éfeso (540 a.C. - 470 a.C.), dizia: “Por que quereis levar-me a toda parte, ó iletrados? Não escrevi para vós, mas para quem me pode compreender. Um, para mim, vale cem mil; e a multidão, nada!”

No século XVI, logo após o surgimento da imprensa, os donos da verdade (sob os auspícios da Santa Madre Igreja) tentaram proibir a publicação de livretos que – adaptados ao gosto do consumidor médio – apresentavam um senso rústico do que era trágico, heróico, moral, sagrado ou ridículo. Acusavam os livros de licenciosos e torpes, quando – na verdade – essas publicações forneciam um inofensivo material que facilitava, ao consumidor comum, a evasão dos problemas diários. Tais publicações traziam um grande progresso: contribuíram para a alfabetização do seu público.

Os jornais do século XIX são vilipendiados, pelos intelectuais aristocráticos, como os precursores da indústria cultural. De fato, os jornais lembram produtos industrializados: formados por um número fixo de páginas, são obrigados a cumprir periodicidade diária. Há que se escrever o necessário para cobrir as páginas, atendendo às necessidades dos anunciantes e às expectativas dos consumidores. Quem escreve para os jornais, não pode ser guiado por necessidades absolutamente interiores: precisa aceitar os condicionamentos impostos pelo funcionamento da imprensa, se quer ser um “funcionário da humanidade”.

A concomitância entre a civilização do jornal e a civilização democrática não é casual. Os jornais forjaram a conscientização das classes subalternas, o nascimento do igualitarismo político e civil. Quem polemiza contra a indústria cultural, não apenas ataca a televisão: investe contra o cinema, as emissões de rádio e acusa a imprensa de se render aos grandes conglomerados econômicos. Esses ataques, em última análise, são contra as concepções igualitaristas e de soberania popular. O uso indiscriminado de um conceito-fetiche, como o de “indústria cultural” implica, no fundo, a incapacidade de aceitar eventos históricos – como a Revolução Americana ou a Revolução Industrial – e a perspectiva de uma humanidade que saiba operar sobre a História.

Estas palavras servem como contraponto para uma ótima notícia: o meu dileto amigo Deonísio da Silva está lançando mais um livro – A língua nossa de cada dia (São Paulo: Editora Novo Século, 2007).

Quando morava em São Carlos, Deonísio foi acusado de “vender a alma ao demônio” porque decidiu publicar uma coluna semanal na revista Caras. Deonísio sabe que o intelectual “deve ir onde o povo está”, como lembrou Milton Nascimento. Ex-seminarista, Deonísio aproveitou a vetusta cultura eclesiástica e aprendeu que a ciência é digna não porque lida com realidades incorruptíveis, mas porque trabalha com métodos dignos. Tudo merece a intervenção do intelectual. Corajoso é quem escreve em Caras; não quem a lê, escondido no banheiro.

Em seu trabalho cultural, Deonísio mostrou enorme coragem, enfrentando a inquisição marxista-leninista, movida por intelectuais tão aristocráticos quanto autoritários. Intelectuais aristocráticos que foram muito bem definidos, em suas bases ideológicas, por Pierre Bordieu: “As acusações contra a indústria cultural encontram suas verdadeiras raízes não, como se quer fazer crer, na descoberta antecipada de um mundo justo, mas numa visão pessimista do homem, dividido entre Eros e Tânatos. Suspensos entre a nostalgia de um verde paraíso de civilizações infantis e a esperança desesperada dos amanhãs do Apocalipse, os profetas do Apocalipse não conseguem escolher entre o proclamado amor às massas ameaçadas pela catástrofe e o amor secreto pela catástrofe”. Deonísio aposta na alegria e na grandeza da humanidade. Eu também.

O autor, Ney Vilela, é coordenador regional do Instituto Teotônio Vilela

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