São Paulo - Apontada em investigação policial e do Ministério Público como o epicentro de um esquema milionário de fraudes na emissão de Carteira Nacional de Habilitação (CNH), a cidade de Várzea Paulista (63 quilômetros de SP) emitiu habilitação de motociclista até para um deficiente que não tinha a mão direita - ustamente o membro utilizado para acelerar a moto.
O caso do motoqueiro, um pedreiro de 32 anos, ilustra a situação da cidade, com poucos mais de 110 mil habitantes, onde foram emitidas, entre 1 de julho de 2006 e 15 de julho deste ano, mais de 10 mil CNHs - número três vezes superior à população de jovens que completaram 18 anos no período na cidade.
A suspeita da polícia é que renovações do documento eram feitas sem a necessidade de o motorista passar pelo curso de formação de condutores, por valores que variavam de R$ 1.200,00 a R$ 2mi. A mesma facilidade obtinham jovens de municípios vizinhos que procuravam auto-escolas da cidade - 24 no total - para tirar a habilitação sem a necessidade de passar pelas provas teórica e prática.
Ontem, despachantes da cidade confirmaram que era possível conseguir carteira até sem passar pelo exame médico aplicado no Ciretran (instância local do Detran).
O caso do pedreiro sem mão que tirou carta se tornou emblemático para pessoas que já conheciam as facilidades em conseguir uma CNH em Várzea. “Essa fraude ilustra a falta de procedimento na emissão de carteiras na cidade. O dono da auto-escola por onde passou o deficiente alegou um erro de digitação na hora de fazer a carta”, afirmou o delegado titular de Várzea Paulista e do Ciretran da cidade, Fernando Manoel Bardi.
“Estamos mapeando os moradores de outras cidades que tiraram cartas aqui. Vamos cassar todas”, acrescentou o delegado, que assumiu a Ciretran da cidade no último dia 1 de julho, após intervenção do Departamento de Polícia Judiciária-2 (Deinter-2).
Uma estimativa inicial da polícia aponta que a fraude movimentou em apenas um mês, junho deste ano, cerca de R$ 1,6 milhão. “Não sabemos quantas carteiras foram emitidas para moradores de outras cidades”, disse Bardi.
Para a polícia, o fato de o Detran ter suspendido a portaria que exigia que a habilitação fosse do mesmo domicílio eleitoral do motorista, pode facilitar as fraudes. Resposta O nome do pedreiro deficiente que conseguiu a habilitação é mantido sob sigilo pela polícia e o MP. Na auto-escola onde ele conseguiu a carta, os proprietários não quiseram falar com a reportagem.
A carta do pedreiro foi cassada no último dia 19, após o início da investigação no Ciretran. “Já informamos essa pessoa que, se ela quiser, poderá tirar carta especial somente para veículo”, completou o delegado titular da cidade.